Posts com Tag ‘cyberpunk’

Dada a imensa controvérsia que existe em torno do termo “hacker” e mediante ao post anterior (“O estilo ‘faça você mesmo’ e a cibercultura”) resolvi dedicar mais um tempo ao tema “cyberpunk”. Além disso, nas discussões em sala de aula, sempre a temática vem à tona e uma série de informações truncadas (nem sempre totalmente erradas e/ou certas) assumem relevância, o que justifica aqui uma breve visão sobre o assunto.

A popularidade do tema é grande, despertando curiosidade. O terno hacker é encontrado no dicionário Houassis que o indica sinônimo de “ciberpirata”, ou seja: “pessoa com profundos conhecimentos de informática que eventualmente os utiliza para violar sistemas ou exercer outras atividades ilegais; pirata eletrônico”.

Mas afinal, esses cyberpunks são todos criminosos? Que ideologia sustenta esses grupos?

Para encaminhar a discussão apresentada, recorremos à pesquisa do sociólogo André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia, que afirma que “a popularização da cultura cyberpunk deve muito aos media de massa como jornais e revistas”. Esses veículos de transmissão em massa, frequentemente divulgam – de forma igualmente controversa e, às vezes, sensacionalista – o lado negativo da ação cyberpunk, colaborando para uma confusão generalizada envolvendo os termos em questão.

De início, para tentar colocar as coisas em ordem, destaco que em Lemos (2002, p.187) encontramos o ideário cyberpunk: ”A informação deve ser livre; o acesso aos computadores deve ser ilimitado e total. Desconfie das autoridades, lute contra o poder: coloque barulho no sistema, surfe essa fronteira, faça você mesmo”. Não ignorando o elemento anárquico do discurso, destaca-se a atitude de democratização ao acesso às tecnologias digitais e o claro convite a uma “rebelião construtiva”, isso na perspectiva de superarmos a condição de consumidores de informações veiculadas (assuntos relacionados aos dois últimos posts deste blog).

Acontece que os grupos de cyberpunks não são homogêneos, existindo uma diversidade de “tribos”, cada qual com sua própria forma de (inter)agir com as tecnologias. Essas, no geral, buscam o  uso intensivo das tecnologias para a comunicação e expansão de conhecimentos; entretanto, cabe a ressalva de que algumas facções consideram que “quebrar a lei” para aprender ou conseguir acesso à informação é uma iniciativa lícita. Lemos (2002), faz uma ampla análise do movimento cyberpunk, destacando a diversidade de alguns desses grupos e suas ações. Deles destaco abaixo os phreakers, hackers e crackers.

Jonh Draper e o apito Capitain Crunch

Os phreakers podem ser entendidos como “piratas do telefone”. Buscavam o acesso gratuito à rede de telefonia para a comunicação irrestrita ao redor do globo. Um dos mais conhecidos é o Capitain Crunch (Jonh Draper), que descobriu que o apito que vinha como brinde em uma caixa de cereais de mesmo nome, emitia uma frequência sonora que possibilitava fazer ligações internacionais sem custo. Essa descoberta inspirou o aparecimento e a comercialização das “Blue Box” (caixas azuis), que possibilitavam ligações clandestinas na rede de telefonia comercial.

Para a compreensão do termo hacker faz-se necessário o contexto histórico de sua origem. Esses cyberpunks, em um primeiro e nobre momento, objetivavam a pluralidade do acesso aos computadores, que até então se encontravam destinados ao uso de grupos tecnologicamente privilegiados (militares, grandes corporações e universitários). Isso se aconteceu na Califórnia, durante a década de 70 e representou o advento da micro-informática. Obviamente, não podemos deixar de salientar que essa “democratização” do acesso aos computadores movimentou (e continua a movimentar) uma industria rentabilíssima de softwares e hardwares, ou seja: a reação provocada extrapolou a nobre ideologia de inclusão tecnológica e recaiu em estratégias mercadológicas (basta ver a história da Microsoft e da Apple, contemporâneas do movimento). Entretanto, em sua essência, “hackers” define aqueles que queriam “libertar as informações e os computadores do poder militar e industrial” e, além disso, “visavam demonstrar as falhas das redes, levando assim à invasão dos sistemas de computadores” (LEMOS, 2002, p.204).

Gary McKinnon, cracker acusado de causar um prejuízo de 700 mil dólares e de desligar a rede de computadores do Exército dos EUA

Finalmente, busquemos o entendimento sobre crackers. Pelo dicionário Houaiss cracker seria: “perito em informática que usa seus conhecimentos para violar sistemas ou redes de computadores”. Destaco na definição do termo o “violar”. Os crackers são “a versão negra dos hackers, sendo por isso rejeitados por esses últimos” (LEMOS, 2002, p. 219). Radicais e de reconhecida perversidade, os crackers invadem sistemas de informática com propósitos de destruir ou roubar informações, dissipam vírus eletrônicos, pirateiam programas, enfim: promover sabotagem digital. Nessas ações ilícitas, incluem os famosos roubos digitais em instituições financeiras que se alastram pela rede (daí a elevada preocupação dos bancos com a segurança por parte de seus clientes).

Para terminar, um exemplo de “hacking ético” (sem a intenção de violar, destruir ou espionar dados alheios), também relatado em Lemos (2002). A ação foi atribuída ao Caos Computer Clube (CCC). No ano de 1984 o grupo alemão atacou a Caixa Econômica de Hamburgo, desviando 135000 DM. Na sequência do ataque, o grupo procurou o banco e devolveu o dinheiro, demonstrando a fragilidade da segurança daquela instituição.

http://twitter.com/cibermarcinho

Para conhecer mais (buscando sempre ir além!!):

Site do sociólogo André Lemos, professor da FACON/UFBA: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/cyberpunk/

Caos Computer Clube (CCC): http://www.ccc.de

Referências

DICIONÁRIO ELETRÔNICO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Versão 1.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

LEMOS, A. Cibercultura. Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea. Porto Alegre, Sulina, 2002.

http://info.abril.com.br/noticias/internet/cracker-britanico-afirma-sofrer-de-autismo-09062009-37.shl

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