Arquivo de agosto, 2010

Historicamente, a introdução dos computadores na educação tendeu a reproduzir o ensino através de máquinas. Em 1924, Sidney Pressey, arquitetou uma máquina para a correção de testes de múltipla escolha. Posteriormente, em 1950, Burrhus Frederic Skinner propôs sua máquina de ensinar, baseada na instrução programada. As máquinas de ensinar foram propostas por Skinner como uma alternativa aos impasses que surgiram em decorrência das demandas de atendimento individual aos aprendizes.

Esse modelo de instrução foi bastante utilizado nas décadas de 50 e 60, mas foi com o advento do computador que ele passou a contar com flexibilidade e se aprimorou. Ainda que o uso de computadores fosse muito restrito e de elevado custo, empresas especializadas tais como a IBM e a RCA passaram a investir na produção de softwares que inauguram a instrução auxiliada por computador, ou Computer Aided Instruction (CAI) ainda na década de 60. Com o advento dos microcomputadores na década de 80, o software CAI ganhou força, o que representou o início do processo de inserção dos computadores nas escolas, principalmente nos países desenvolvidos. No CAI tem-se a primeira situação do uso do computador no contexto educacional como de uma máquina de ensinar aprimorada.

Modelo Instrucionista via computador

A figura acima sintetiza o modelo instrucionista de ensino mediado pelo computador. Em um primeiro momento, o computador é provido das informações que serão ministradas ao aluno. Essa ação de municiar o computador com as atividades programadas para o ensino é realizada por meio da instalação de um software do tipo CAI ou um dado conteúdo educacional. O processo de transmissão de conteúdos programados se perpetua quando um aluno faz uso do computador e, através dele, recebe o “pacote de informações” previamente programado. O aluno é o espectador para um volume de conhecimentos pré-determinados, pois, na maioria dos softwares de CAI, a interação existente entre o discente e o computador limita-se ao fornecimento de respostas a exercícios e a avanços ou retrocessos no conteúdo. Notadamente, um modelo unidirecional, individual e não colaborativo.

A abordagem instrucionista teve e continua a ter espaço dentro do cenário da educação. Foi a partir dela que os computadores começaram a ser difundidos nos ambientes escolares, sendo isso um ponto de partida para a criação de reflexões e novas possibilidades. Uma delas é que o uso do computador em um ambiente de aprendizagem pode e precisa extrapolar a automatização da transmissão de conteúdos programáticos, isso porque os ambientes educacionais necessitam de recursos que estimulem o pensamento crítico e a expressão de idéias de forma individual e coletiva.

Silva (2008, p.69) defende que “a dinâmica comunicacional da cibercultura e das interfaces de comunicação online entram em conflito com os fundamentos e práticas do ensino tradicional […]”. Nota-se, portanto, que se devidamente utilizados os recursos oferecidos pelo computador online podem viabilizar nova perspectiva para um processo educador criativo, fundamentalmente comunicativo, expressivo e contrário à reprodução. Não se trata de ignorar o valor da instrução, mas o de reconhecer que ela sozinha não é suficiente para a efetivação da construção de conhecimento.

Nos próximos posts vou ampliar essa discussão. Mas fica a pergunta: já conseguimos romper com a lógica da transmissão na educação?


Para ir além e saber mais:

Conheça o site do Porfessor Marco Silva (UERJ/Estácio): http://www.saladeaulainterativa.pro.br/

Leia o artigo: http://www.marcinholima.com.br/artigos/ciberpedagogia.pdf

Conheça também a dissertação:  http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=151294

Referência bibliográfica citada:

SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.

Na última sexta (24/08) acompanhei online o evento de lançamento do “Grupo de Estudos: Educar na cultura digital”. O evento foi seguido de um interessantíssimo o debate entre o professor André Lemos (UFBA), Rodrigo Njem (Safernet) e a professora Lea Fagundes (UFRGS).

Os especialistas André Lemos, Rodrigo Nejm e Léa Fagundes (da esq. para a dir.) em debate mediado por Renata Simões (camisa vermelha) - Fonte: Educarede

Lemos abriu sua fala caracterizando a cibercultura, seus princípios e simplificou-a afirmando que vivemos a “cultura da leitura e da escrita”. Em uma linha geral, isso quer dizer que os dispositivos digitais e o acesso aos recursos da WEB 2.0 elevaram nossa condição de usuários de informações para seus produtores. Ele citou os blogs, vídeo-blogs, Twitter e outros recursos gratuitos como ferramentas que motivam a autoria e publicação em rede.

Já Rodrigo Njem trabalhou a questão da “ética do clique na cultura digital”. Foi reforçada a ideia do ciberespaço como universo digital público, que exige critérios para a transitabilidade e, fundamentalmente, nos comportamentos assumidos pelos interagentes. Ficou clara a mensagem de que é necessário potencializar ou uso ético e pedagógico do ciberespaço desde a infância.

Lea Fagundes fez uma fala impactante. Com 80 anos de vida, 60 de docência e coordenando o Laboratório de Estudos Cognitivos (LEC/UFRGS), rememorou as diferentes tecnologias e suas relações com a educação. Rebateu o argumento de sermos “reféns da tecnologia”, qualificando os equipamentos como instrumentos de ampliação dos sentidos e da cognição do homem. Reforçou que apesar dos alunos viverem a cultura digital a escola continua fora dela, sendo necessária imediata reconfiguração de seus pressupostos (currículo, formação de professores etc). Mesmo com o pouco tempo disponível, a palestrante apresentou parte de seu trabalho com o UCA (um computador por aluno), indicando melhorias e transformações no ato educativo já alcançadas. Não posso omitir que notei certa aproximação entre as idéias de Lea e o educador Seymour Papert, que inclusive já visitou o LEC.

Durante a seção de perguntas surgiu o dilema entre o educar “para a” ou “na” cultura digital, que foi discutido com opiniões divergentes. Aqui, contribuo com a minha modesta opinião e experiência sobre o tópico. Acredito que a Educação precisa ser vista com o tamanho de sua complexidade. Afirmar que não é necessário educar “para” a cultura digital é muito relativo.  Se os “nativos da cultura digital” (geração Y) vêm de famílias que já possuem o acesso às tecnologias digitais e já possuem o discernimento de seu uso, temos um contexto bem favorável a pular a etapa do “educar para”. Entretanto, não podemos ignorar que o Brasil é enorme em tamanho e diversidades culturais, ocupacionais, sócio-econômicas etc. Diariamente, em minha própria sala de aula vivencio demandas heterogêneas. Acredito que não se faz educação sem levar em conta o contexto. E reflito: será que uma sala de aula de São Paulo, com alunos socialmente bem colocados é a mesma sala de aula de uma cidade do interior do País, com alunos de realidades diversas e socialmente menos favorecidos? Sabemos que não…

Na verdade, como educador, tenho de me preparar para educar “para a” e “na” cibercultura. Não consigo ver essa dicotomia. Creio que é melhor conviver na “conjunção” entre eles e na busca do equilíbrio do processo educativo.

Termino o post convidando-o a participar do grupo de estudos “Educar na cultura digital”. O endereço para informações e cadastro é: http://educarnaculturadigital.org.br/.

Certamente, vamos debater essa questão e muitas outras. Espero você lá.

Ouras (re)visões:

– Resumo e comentários-Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital (por@erionline)

– Educar na Cultura Digital (por @cybelemeyer)

– Educar na Cultura Digital (por @samegui)

– Grupo de Estudos: a proposta (por @soniabertocchi)

– “Educar na Cultura Digital” é tema de debate na Bienal do Livro(por@safernet)

Não posso deixar de relatar a experiência de ontem, primeiro dia de intervenção em uma escola básica de Diamantina, onde busco fazer um trabalho de “inclusão digital” na modalidade de extensão universitária. Por isso, peço desculpa pelo desvio no estilo da escrita e pela temática que sai da teoria… e recai na prática (e isso é ótimo na minha opinião).

É muito legal estar podendo fazer algo que pode vir a transformar a prática pedagógica de alguém. Quando passei para professor aqui na UFVJM (junho/2009), logo em seguida veio o questionamento: “ – E agora, onde agora eu vou executar meu plano de pesquisa e extensão?!”. Precisava de um grupo de professores(as) – obviamente de uma escola também! – e de computadores… No primeiro semestre de 2010, uma aluna revelou-me trabalhar em uma escola de um bairro muito carente aqui da Cidade. Disse também que um trabalho como o que eu fazia em sala de aula seria muito útil lá. Fiquei de amadurecer a ideia… e amadureci. Um ano depois da aprovação no concurso e já com sete meses de exercício, visitei a escola indicada. Para minha surpresa, no dia da visita estavam chegando 10 computadores novinhos do PROINFO (Programa Nacional de Tecnologia Educacional). Coincidência? Perguntei para a diretora: “ – Os computadores são acompanhados de algum programa de formação docente?”. A resposta veio rápida: “ – Não! Não sabemos o que vamos fazer!”. Eu retribuí imediatamente com um: “ – Muito prazer, sou professor de informática!”.

Em destaque a escola onde se realiza a interação com os professores no projeto de Extensão. Fonte: Google Maps

Começou ali. Marcamos um dia para eu conhecer a equipe de professores(as), isso no último dia de aula de julho. Fechamos na reunião um processo de intervenção com vistas à inclusão digital (não gosto do termo “capacitação” e muito menos do termo “treinamento”, pois acredito que todo mundo é capaz e que treinamento é coisa para domesticador, definitivamente: não é meu caso). Dali até a volta às aulas foi elaborar o projeto oficial e submetê-lo ao trânsito interno da Universidade.

Antes de continuar o relato, acho importante ressaltar o sentido de “inclusão digital”, que supera o simples contato com as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Se a premissa básica é realmente poder contar com tais tecnologias (daí a minha preocupação inicial em 2009), isso não encerra o assunto. Como o grupo de trabalho é formado de professores que irão multiplicar o conhecimento e o processo de inclusão, o assunto é ainda mais delicado. Acredito que incluir digitalmente recaia na questão da melhoria da qualidade de vida. Ou seja: ter domínio e fazer o uso consciente das tecnologias digitais de forma a transformar – para melhor – as atividades. Além disso, é indispensável ajudar a desenvolver a segurança e incentivar a a autonomia dos sujeitos para o uso das TICs. Existem outras questões, mas creio que assim o sonho de uma possível cidadania digital começa a ser vislumbrado.

Ontem foi o primeiro dia. Passamos boa parte da tarde debatendo questões que envolvem o universo digital, a cibercultura, a docência , o passado/presente da (micro)informática. Como os computadores vem equipados com Linux Educacional, não faltou a famosa frase: “ – Mas tem que ser com o Linux?!”. Para o início da conversa, foi ótima a pergunta. Percorremos toda a questão da evolução do hardware e do software, dos personagens envolvidos (Bill Gates, Steve Jobs, Linus Towards – entre outros), abordamos pirataria, software livre e concluímos estabelecendo os conceitos de software básico e aplicativo. Ao compreender a questão sobre o custo envolvido no pagamento de patentes aos softwares proprietários, a situação mudou significativamente. Não é de se estranhar o fato. Trata-se de profissionais maduros(as) de uma escola pública, que entre o inúmeros problemas típicos da realidade escolar, convivem também com a responsabilidade e o zelo pelo bem público, patrimônio de todos nós.

Não sou contra o software proprietário. Em absoluto. Gosto muito das ferramentas da Microsoft e fui iniciado no mundo dos computadores com elas (inclusive tenho uma versão do Windows legalizada). Sonho, um dia, ter recursos para possuir um Mac e conhecer um novo mundo digital (e quem não possui?). Entretanto, tenho a consciência do que tenho de fazer como educador de uma Universidade pública: estimular o uso do software que é livre e que não cobra patentes. Nesse sentido, recordo de uma experiência que tive em uma escola particular. Existia uma parceria entre a escola e a Microsoft em seu laboratório de informática. Estavam licenciados o sistema operacional (Windows XP), o pacote Office e uma série de ferramentas de desenvolvimento. Ótimo, não é mesmo? Entretanto, as condições de uso das ferramentas toliam a liberdade de professores e alunos. Não sei se por exigência da Parceira norte americana ou imposição dos gestores, não se podia ter software algum que não fosse da referida parceira. Ou seja: não era permitido se instalar e explorar quaisquer ferramentas de software como APACHE, MySQL, PHP etc, todos em evidência no mercado e de grande valia aos estudantes de computação. Ótimo para o gestores e péssimo para os verdadeiros interessados: professores e alunos. Seria essa uma postura compatível com a educação?

Termino esse post com dois momentos. Um triste e outro que ninguém no mundo tira o prazer e a felicidade geradas. O triste foi que na saída a secretária da escola, que também usa o Linux e o BR-Office, me pediu para ver um documento que estava desconfigurado. Ele havia chegado via e-mail de uma instância superior. Ao constatar o formato do arquivo, vi que ele estava em DOC, ou seja, formato proprietário. Será que essa instância superior (que também é um órgão público) pagou pelo licenciamento do produto? Se positivo, não seria mais ético, que ao enviar um documento para ser preenchido digitalmente ele seguisse em um formato aberto (ODF – Open Document Format)? Fica a reflexão. O momento feliz foi o de ver a alegria das pessoas em estar tendo a oportunidade de conversar, compreender e ter a chace de utilizar um microcomputador em sua prática pedagógica. Pode ter certeza: o brilho nos olhos e os sorrisos não faltaram. E o melhor: sem ter de pagar patentes.

Um abraço digital e até a próxima.

P.S.: esse texto foi escrito utilizando o BR-Office.


Para ir conhecer mais:

Suite gratuita de aplicativos em português (editor de textos, planilha, editor gráfico, banco de dados): http://www.broffice.org/

Ubuntu (“Linux para seres humanos”):  http://www.ubuntu-br.org/

Linux Educacional: http://linuxeducacional.com/

Dada a imensa controvérsia que existe em torno do termo “hacker” e mediante ao post anterior (“O estilo ‘faça você mesmo’ e a cibercultura”) resolvi dedicar mais um tempo ao tema “cyberpunk”. Além disso, nas discussões em sala de aula, sempre a temática vem à tona e uma série de informações truncadas (nem sempre totalmente erradas e/ou certas) assumem relevância, o que justifica aqui uma breve visão sobre o assunto.

A popularidade do tema é grande, despertando curiosidade. O terno hacker é encontrado no dicionário Houassis que o indica sinônimo de “ciberpirata”, ou seja: “pessoa com profundos conhecimentos de informática que eventualmente os utiliza para violar sistemas ou exercer outras atividades ilegais; pirata eletrônico”.

Mas afinal, esses cyberpunks são todos criminosos? Que ideologia sustenta esses grupos?

Para encaminhar a discussão apresentada, recorremos à pesquisa do sociólogo André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia, que afirma que “a popularização da cultura cyberpunk deve muito aos media de massa como jornais e revistas”. Esses veículos de transmissão em massa, frequentemente divulgam – de forma igualmente controversa e, às vezes, sensacionalista – o lado negativo da ação cyberpunk, colaborando para uma confusão generalizada envolvendo os termos em questão.

De início, para tentar colocar as coisas em ordem, destaco que em Lemos (2002, p.187) encontramos o ideário cyberpunk: ”A informação deve ser livre; o acesso aos computadores deve ser ilimitado e total. Desconfie das autoridades, lute contra o poder: coloque barulho no sistema, surfe essa fronteira, faça você mesmo”. Não ignorando o elemento anárquico do discurso, destaca-se a atitude de democratização ao acesso às tecnologias digitais e o claro convite a uma “rebelião construtiva”, isso na perspectiva de superarmos a condição de consumidores de informações veiculadas (assuntos relacionados aos dois últimos posts deste blog).

Acontece que os grupos de cyberpunks não são homogêneos, existindo uma diversidade de “tribos”, cada qual com sua própria forma de (inter)agir com as tecnologias. Essas, no geral, buscam o  uso intensivo das tecnologias para a comunicação e expansão de conhecimentos; entretanto, cabe a ressalva de que algumas facções consideram que “quebrar a lei” para aprender ou conseguir acesso à informação é uma iniciativa lícita. Lemos (2002), faz uma ampla análise do movimento cyberpunk, destacando a diversidade de alguns desses grupos e suas ações. Deles destaco abaixo os phreakers, hackers e crackers.

Jonh Draper e o apito Capitain Crunch

Os phreakers podem ser entendidos como “piratas do telefone”. Buscavam o acesso gratuito à rede de telefonia para a comunicação irrestrita ao redor do globo. Um dos mais conhecidos é o Capitain Crunch (Jonh Draper), que descobriu que o apito que vinha como brinde em uma caixa de cereais de mesmo nome, emitia uma frequência sonora que possibilitava fazer ligações internacionais sem custo. Essa descoberta inspirou o aparecimento e a comercialização das “Blue Box” (caixas azuis), que possibilitavam ligações clandestinas na rede de telefonia comercial.

Para a compreensão do termo hacker faz-se necessário o contexto histórico de sua origem. Esses cyberpunks, em um primeiro e nobre momento, objetivavam a pluralidade do acesso aos computadores, que até então se encontravam destinados ao uso de grupos tecnologicamente privilegiados (militares, grandes corporações e universitários). Isso se aconteceu na Califórnia, durante a década de 70 e representou o advento da micro-informática. Obviamente, não podemos deixar de salientar que essa “democratização” do acesso aos computadores movimentou (e continua a movimentar) uma industria rentabilíssima de softwares e hardwares, ou seja: a reação provocada extrapolou a nobre ideologia de inclusão tecnológica e recaiu em estratégias mercadológicas (basta ver a história da Microsoft e da Apple, contemporâneas do movimento). Entretanto, em sua essência, “hackers” define aqueles que queriam “libertar as informações e os computadores do poder militar e industrial” e, além disso, “visavam demonstrar as falhas das redes, levando assim à invasão dos sistemas de computadores” (LEMOS, 2002, p.204).

Gary McKinnon, cracker acusado de causar um prejuízo de 700 mil dólares e de desligar a rede de computadores do Exército dos EUA

Finalmente, busquemos o entendimento sobre crackers. Pelo dicionário Houaiss cracker seria: “perito em informática que usa seus conhecimentos para violar sistemas ou redes de computadores”. Destaco na definição do termo o “violar”. Os crackers são “a versão negra dos hackers, sendo por isso rejeitados por esses últimos” (LEMOS, 2002, p. 219). Radicais e de reconhecida perversidade, os crackers invadem sistemas de informática com propósitos de destruir ou roubar informações, dissipam vírus eletrônicos, pirateiam programas, enfim: promover sabotagem digital. Nessas ações ilícitas, incluem os famosos roubos digitais em instituições financeiras que se alastram pela rede (daí a elevada preocupação dos bancos com a segurança por parte de seus clientes).

Para terminar, um exemplo de “hacking ético” (sem a intenção de violar, destruir ou espionar dados alheios), também relatado em Lemos (2002). A ação foi atribuída ao Caos Computer Clube (CCC). No ano de 1984 o grupo alemão atacou a Caixa Econômica de Hamburgo, desviando 135000 DM. Na sequência do ataque, o grupo procurou o banco e devolveu o dinheiro, demonstrando a fragilidade da segurança daquela instituição.

http://twitter.com/cibermarcinho

Para conhecer mais (buscando sempre ir além!!):

Site do sociólogo André Lemos, professor da FACON/UFBA: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/cyberpunk/

Caos Computer Clube (CCC): http://www.ccc.de

Referências

DICIONÁRIO ELETRÔNICO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. Versão 1.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

LEMOS, A. Cibercultura. Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea. Porto Alegre, Sulina, 2002.

http://info.abril.com.br/noticias/internet/cracker-britanico-afirma-sofrer-de-autismo-09062009-37.shl

Muito mais que um estilo musical o termo “punk” engloba uma diversidade de elementos que se mesclam e revelam um movimento social que surgiu nos Estados Unidos/Inglaterra durante a década de 70. O princípio de autonomia (revelado no do-it-yourself – faça você mesmo) somado a doses de rebeldia, radicalismo, agressividade, pessimismo quanto ao mundo, rejeição à complexidade e não aceitação da cultura vigente, inspiraram a sua instauração. É certo que a cultura punk inspirou um estilo musical de mesmo nome, mas também é expressa na moda, arte, comunicação, comportamento entre outros. Sucintamente, o movimento punk revelou uma cultura marginal e às vezes transgressora, que se consolidou nas ruas com a formação de gangues que viviam seguindo seus costumes e ideologias.

Os Ramones (Johnny Ramone, Tommy Ramone, Joey Ramone, and DeeDee Ramone), New York City (1976) by Roberta Bayley

Mas como isso se relaciona à cibercultura? Contemporânea ao movimento punk desenvolvia-se  nos Estados Unidos a microinformática, que foi o berço da cibercultura. “Mais do que uma questão tecnológica, o que vai marcar a cibercultura não é somente o potencial das novas tecnologias, mas uma atitude que, no meio dos anos 70, influenciada pela contracultura americana, acena[va] contra o poder tecnocrático. O lema da microinformática será: ‘computadores para o povo’ (computers to the people)”. (LEMOS, 2002, p.101)

Percebe-se, portanto, a prerrogativa da democratização ao acesso e à produção de informações com as novas tecnologias, antes somente acessíveis ao poder militar e às grandes corporações. É importante salientar que a microinformática se consolidou com a popularização dos computadores e, posteriormente, com o surgimento e expansão das redes telemáticas que acabaram por formar a internet (décadas de 80 e 90, respectivamente). Nunca é demais lembrar que a cibercultura representa a apropriação das tecnologias digitais e dos recursos do ciberespaço pela sociedade, o que resultou em novas formas de relacionamento, pensamento e ação cotidiana.

É nesse ponto que o lema punk (faça você mesmo) ganha força dentro do cenário da cibercultura, sendo possível a sua releitura como: “faça você mesmo os seus programas, colabore, compartilhe e modifique códigos de forma a quebrar a hegemonia dos softwares proprietários”. O movimento do software livre cresceu significativamente com a expansão do ciberespaço. Nele, consolidaram-se as cibercomunidades que se articulam remotamente na a criação e disponibilização de programas para computadores, sendo esses últimos livres e/ou abertos (alternativos ao software que exige pagamento e/ou que não permitem modificações). São exemplos o sistema operacional Linux, o pacote de aplicativos OpenOffice (BR-Office) e a plataforma virtual de aprendizagem Moodle, entre muitos outros.

Assim, em um microcomputador munido de softwares (gratuitos ou não) e acesso à internet, passou a ser possível a criação de textos, edição de som e vídeo para posterior publicação no ciberespaço. Aqui, mais uma vez, o lema punk se faz presente. Não apenas no sentido do “ato de fazer”, mas também no de ir contra a tradição de sermos simplórios consumidores de informações produzidas por terceiros (mídia de massa).

(Excelente vídeo sugerido por Fernando Vieira após ter o post)

Dentro da perspectiva da autoria e liberdade de expressão, surgiram os Blogs (como esse) onde milhares de internautas publicam suas ideias, diários, pesquisas, fotos, vídeos etc. Segundo Lemos (2005), há a criação de um novo blog cada segundo. Notadamente, a força da “blogosfera” é tamanha, uma vez que a própria mídia de massa passou a se adequar a essa nova forma de relacionamento e produção de informações, sendo muito comuns encontrarmos no ciberespaço os blogs dos programas de rádio e televisão.

Então, fica aqui o convite: “faça você mesmo”. Ouse! Crie! Participe! Colabore! Seja seu próprio editor.

Para ir além e saber mais:

LEGS, M.;MACCAIN, G. Mate-me por favor. Porto Alegre, L&PM, 2004.

LEMOS, A. CiberculturaTecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea. Porto Alegre, Sulina, 2002.

LEMOS, A. Ciber-Cultura-Punk. In, Revista Cult, n. 96, “Dossier PUNK”,  2005.

KOFMAN, V. Coração envenenado: minha vida com os Ramones.  São Paulo: Barracuda, 2002.

Para ir além e fazer você mesmo:

http://www.blogger.com/start?hl=pt-BR

http://wordpress.com

Até o próximo post!