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Muito provocativo e elucidativo o post “O Tradicional no Virtual” do amigo e interlocutor Eduardo Henrique Mattos Lima (http://goo.gl/1S1Ie). O texto do professor Eduardo é muito claro, equilibrado e traz considerações muito lúcidas sobre a questão da Khan Academy (http://goo.gl/sPQgA) e seu sucesso no meio acadêmico.

Ampliando a discussão, vale destacar que em Fevereiro de 2012 tivemos a visita do professor Sugata Mitra (Educational Technology at the School of Education, Communication and Language Sciences at Newcastle University) na Campus Party Brasil. Em sua palestra uma afirmação contundente rendeu críticas nas redes sociais e blogs. O palestrante Indiano, pesquisador sobre o autodidatismo, reafirmou que um computador pode “substituir” um professor. Se você olhar para essa afirmação de forma descontextualizada, certamente vai se tornar mais um a fazer coro na avalanche de comentários depreciativos.

Todo trabalho de pesquisa merece críticas e interlocuções, mas a fala de Mitra não deve ser encarada de forma reducionista. Em sua intervenção no TED (http://goo.gl/oWk9Q) o professor mostrou que nos mais longínquos pontos do planeta, a presença física de um professor qualificado é algo praticamente impossível. Disso advém a necessidade de alternativas para viabilizar a aprendizagem.  Em um de seus projetos mais conhecidos – Hole in the Wall – o pesquisador disponibilizou um computador com acesso à internet em um muro de uma favela em Nova Delhi e, por intermédio de câmeras, observou a apropriação daquela tecnologia. Crianças que não conheciam o idioma dos softwares (inglês) e que até então não haviam tido contado com computadores, aprenderam a “navegar” na internet em dois meses sem nenhum tipo de intervenção.

Tendo tudo isso em mente, vemos o duplo sentido nas palavras de Mitra: “Se existe um professor que pode ser substituído por uma máquina, é porque ele realmente merece ser substituído”.

Voltando ao caso de sucesso da Khan Academy, temos uma situação diferente. Sal Khan vale-se de carisma e tecnologias digitais para elaborar vídeo-aulas sobre diversos temas de forma direta, rápida e clara. O formato da instrução replica o modelo tradicional de uma aula expositiva, onde um conteúdo é introduzido/explicado e exercitado. Esse formato é potencializado na virtualidade, que disponibiliza o “pacote de informação” no formato 24horas/7dias por semana. Apesar de não se fazer educação sem a instrução direta acredito que ela não seja suficiente para assegurar um aprendizado efetivo. Entretanto, prefiro ver o lado positivo da iniciativa: a virtualidade abre mais um canal para o contato com os saberes de referência. Paralelo a isso, precisamos fazer valer as possiblidades virtuais para ampliar a interatividade entre alunos e professores, valorizar os processos dialógicos/interativos e, por fim, tentar rever os processos de avaliação. Nesse sentido o professor pode assumir funções mais abrangentes do que a de simplesmente transmitir informações.

Não gosto do termo “substituição”, que me parece muito fatídico. Prefiro pensar em reconfiguração. O que os trabalhos Mitra e Khan evidenciam são desafios à educação na cibercultura: a revisão de métodos e práticas, o sentido do tempo e espaço escolares e, fundamentalmente, a formação dos professores.

Quando agenda de estudos aponta para uma maior compreensão da cibercultura, o tunisiano Pierre Lévy é um dos referenciais indispensáveis. O filósofo teoriza o assunto desde a década de 90 do século passado, destacando-se como referências bibliográficas essenciais: “As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática” de 1992, “O que é o virtual?” de 1996 e “Cibercultura” de 1999.

Especificamente na obra de 1996, Lévy constrói o conceito de virtualização como uma dinâmica fecunda, potencializadora de realizações e que permite novas formas de criação. O autor aponta a origem do termo “virtual” no latim virtualis, que é derivante de virtus: força, potência. A ideia de que “virtual” – enquanto ausência de existência – é o oposto do “real” – enquanto presença tangível – é apontada pelo filósofo como enganosa e de senso comum. Assim, quando uma entidade é virtualizada abrem-se espaços para reconfigurações e complexificações da realidade. Lévy exemplifica esse fato com a virtualização das organizações. Nesse sentido, o escopo de transformações espaço-temporais é elucidado: o trabalho virtual flexibiliza o horário e dispensa a estrutura espacial do empreendimento, bem como a presença física dos trabalhadores. A nova configuração do trabalho baseia-se em uma rede de colaboração sustentada por ferramentas de comunicação eletrônica e por sistemas que facilitam a cooperação.

Assim, a virtualização revela-se como um movimento inovador e criativo, que permite novas perspectivas de ação tendo como características intrínsecas o “desprendimento do aqui e do agora”. Indispensável o tensionamento crítico acerca de que o virtual não deve ser encardo como substituto imediato do real (LÉVY, 1999). Ambas as configurações não são excludentes, mas complementares e coexistentes.

Quando buscamos a aproximação dessa discussão da esfera escolar, podemos perceber que ela lhe é perfeitamente compatível. A “escola virtual” também se sujeita a uma nova configuração espaço-temporal, na qual são recriados seus processos de funcionamento, rompem-se as barreiras de deslocamento e presença física de seus sujeitos e abrem-se oportunidades interativas para a comunicação nas ferramentas típicas da virtualidade. Esse conjunto de transformações aponta para a instauração de uma nova realidade para escola.

Obviamente, essa atualização no cotidiano escolar traz consigo desdobramentos para a comunidade escolar, instaurando-se novas formas de convivência e operacionalização da intencionalidade educativa. No que diz respeito à docência, por exemplo, perde espaço o professor repassador de conhecimento e surge uma nova perspectiva:

O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão ao seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca dos saberes, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc (LÉVY, 1999, p.171).

Assim, o papel do professor na “escola virtual” é o de provocar interações e o uso das ferramentas de (re)construção do conhecimento, propor desafios e aprender em conjunto com os alunos. Essa postura complexifica a ação do “professor entregador de conteúdos”, possibilitando o questionamento crítico, o debate, o incentivo à pesquisa e à aprendizagem colaborativa e contínua.

Do lado discente, o sujeito precisa estar ciente de que está inserido em uma dinâmica onde ele não é um espectador. Pelo contrário, ele deve se envolver e usufruir do potencial comunicativo oferecido pelas ferramentas virtuais e pelas propostas de discussão colaborativa, buscando ir além da compreensão/memorização de conceitos isolados. Dessa forma, o educando possui a responsabilidade de situar o seu grau de aprendizagem e de (re)agir, ponderando seu nível de envolvimento com a (re)construção de seu conhecimento.

Definitivamente, se olharmos para o possível ganho de qualidade no processo de ensino-aprendizagem de tal abordagem, o virtual potencializa o atual da escola tradicional.

Um abraço e até o próximo post.

Referências Bibliográficas

LÉVY. Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era dainformática. Tradução: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

LÉVY. Pierre. O que é o virtual. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1996.

LÉVY. Pierre. Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.