Posts com Tag ‘cultura digital’

Jéssica Regina Romão Cabral e Marcinho Lima

Vivemos em uma era de mudanças, onde acolhemos as tecnologias digitais transformando-as em cultura. Mas há uma diferença: alguns de nós somos  “Nativos Digitais” e outros “Imigrantes Digitais”. Os Nativos Digitais são pessoas que já nascem na cultura digital, já os Imigrantes Digitais são as pessoas que se esforçam na adaptação do uso dessas tecnologias. Analisando estes conceitos nas salas de aula de hoje, percebemos que as crianças chegam às escolas com esta cultura tecnológica aflorada e encontram professores que ainda estão aprendendo e se inserindo nessa nova cultura.

É possível imaginar que essas gerações entram em conflito, pois os alunos chegam às salas de aula esperando uma forma de ensino mais interativa e participativa, com conceitos passados com dinamismo, similar ao que acontece na Internet. Já os professores insistem no senso comum pedagógico criticado por Paulo Freire: os docentes veem o aluno como um repositório vazio onde podem ser depositados conteúdos, equações, datas e fatos, sem qualquer interação na construção de conhecimentos por parte do sujeito (metáfora da conta bancária).


Vivemos a cibercultura, os alunos e suas formas de aprender mudaram. Isso impele à educação a reconfiguração de seus processos. Um primeiro passo – que inclusive precede a cultura digital – rumo a essa mudança é o reconhecimento por parte do professor que o aluno é sujeito da sua aprendizagem, é quem realiza a ação e não alguém quem sofre ou recebe uma ação. Se a aprendizagem é um processo interno, que ocorre como resultado da ação do sujeito, o professor tem como papel mediar e criar condições para a aprendizagem efetiva dos alunos.

Um segundo passo para essa mudança é a aceitação que os meios virtuais podem servir como ambientes para o melhor aprendizado dos alunos. Quando os professores entendem e incorporam essas sugestões, o processo de ensino-aprendizagem pode fluir de uma forma mais agradável e prazerosa, facilitando e ampliando a relação do aluno-professor. Nessa perspectiva, o aluno pode ser motivado a deixar de ser apenas espectador,  participando ativa e colaborativamente da construção de seu conhecimento. Torna-se, portanto, sujeito de sua aprendizagem.

A utilização do virtual no enriquecimento da prática pedagógica é muito importante, já que os alunos estão imersos na cultura digital. Entretanto, os professores não devem encarar a utilização das tecnologias como caráter único e primeiro de sua ação educativa, não devem ser reféns desses instrumentos. Precisam reconhecer a realidade sociotécnica e, criticamente, repensar e recriar sua pratica, tornando-a compatível ao cenário da cibercultura.

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Esse texto é de autoria compartilhada com a acadêmica  Jéssica Regina Romão Cabral, da Licencitura em Física pela Universidade Federal de São João del-Rei. É fruto das interlocuções em sala de aula e na Internet.

Os conceitos de “Nativo Digital” e “Imigrante Digital” são de autoria de Marc Prensky. (Marc Prensky, (2001) “Digital Natives, Digital Immigrants Part 1”, On the Horizon, Vol. 9 Iss: 5, pp.1 – 6)

O professor Marco Silva (UERJ/UNESA) atualizou o conceito de interatividade associando-o com a educação na cibercultura. Sua tese de doutoramento foi adaptada e editada no livro “Sala de aula interativa” – uma leitura indispensável aos ciberdocentes.

Nesse vídeo, Marco apresenta sua perspectiva e nos convida à interatividade.

Se a cibercultura instiga-nos à leitura e a escrita com os meios digitais, o ensino-aprendizado nessa cultura inspira-nos o (re)posicionamento como professores e alunos mediante as nova possibilidades interativas do virtual.

Aqui temos um “marco” para a Educação 2.0. Está ao nosso alcance o rompimento com a barreira exclusiva da transmissão, a horizontalização da prática pedagógica e o benefício da virtualidade com as interfaces digitais. Depende de nós! Aceita o desafio?

Por que usar Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação? Essa foi a pergunta que gerou a tag #PorqueTic no Twitter e agregou um debate virtual entre educadores. Abaixo selecionei algumas participações.

@CiberMarcinho Marcinho Lima
#PorqueTic ? Por que as TICs fomentam a leitura do mundo e podem contribuir com uma educação socialmente referenciada! Depende de nós!

@NexPeople – NexPeople
Métodos tradicionais eram funcionais na soc. industrial. E são absolutamente disfuncionais na sociedade em rede.

@NexPeople – NexPeople
A escola não pode continuar brincando de avestruz, enterrando a cabeça no passado, ignorando os desafios de hoje

@SoniaBertocchi – Sonia Bertocchi
Porque a escola não pode viver apartada da cultura da sua época. Estamos em tempos de cultura digital!

@cintiayuri – Cintia Yuri Nishida
Tecnologia já é parte da vida de crianças e adolescentes e com a orientação do professor a educação pode continuar além da escola

@starpy – Estrella López
Porque motivan, acercan el conocimiento, enlazan personas e intereses comunes, favorecen la capacidad crítica, ayudan a compartir

@CiberMarcinho – Marcinho Lima
Se tecnologia é cultura, não é ela que deve estar na escola! É a escola que precisa estar na cultura, incluída e incluindo

@Lilian_Ferreira – Lilian Ferreira
Ora ora, pq as ferramentas colaborativas dão voz aos alunos, oportunidade de produzir ao invés de só escutar

@CiberMarcinho – Marcinho Lima
Incentivar a autoria com as TIC é promover inclusão na cibercultura. É repensar a educação e horizontalizar a prática pedagógica

@SoniaBertocchi – Sonia Bertocchi
Não basta estar conectado, é preciso estar inserido. Inclusão digital é diferente de inserção na #culturadigital! #porqueTIC

@CiberMarcinho – Marcinho Lima
Superar o imediatismo do acesso às TIC é promover a inclusão digital com estimulo à sua integração ao cotidiano do aluno-cidadão. #PorqueTic

@CiberMarcinho – Marcinho Lima
Considerar inclusão digital apenas acesso às TIC é negligenciar o potencial transformador de sua incorporação à prat.pedagógica #PorqueTic

@CiberMarcinho –
Marcinho Lima Os dispositivos digitais precisam ser compreendidos e apropriados como ferramentas de ampliação dos sentidos e da cognição #PorqueTic

@CiberMarcinho – Marcinho Lima
A escola fora da cibercultura é um desserviço à educação transformadora. É o mesmo que exclusão social e traduz um esforço vazio. #PorqueTic

@CiberMarcinho – Marcinho Lima
O “currículo com o digital” assume uma dimensão prática que suscita a adequação da intencionalidade pedagógica à cibercutura #PorqueTic

@SoniaBertocchi – Sonia Bertocchi
Em um 1º momento a escola se preocupou mto com a INCLUSÃO, agora é preciso dar mais atenção à INSERÇÃO na #cibercultura #porqueTIC

@miladatgon – Mila Gonçalves
Para ampliar as competências e habilidades dos alunos e dos educadores #porqueTIC

@claudemirviana – Claudemir Viana
O novo assusta mas sempre chega, e aprendemos muito c/ ele! E as tics podem ajudar a educação nisso, a depender de como as usamos #porqueTIC

@cefopeanapolis – CEFOPE Anápolis
#porqueTIC Pq elas nos conduzem a um caminho sem volta e depende de nós,educadores, fazer q este seja um bom e produtivo caminho

Dedico esse post ao comentário – com certa frustração – do livro “A hora da geração digital” de Don Tapscott, 2010. Segundo os elementos pré-textuais da obra, o autor canadense é professor na Universidade de Toronto e também se dedica à consultoria em estratégia corporativa e transformação organizacional.

Capa do livro "A hora da geração digital"

O livro decepciona pela falta de prudência acadêmica de seu autor em alguns trechos, que são fartos de frases de impacto sugerindo senso comum. O estilo de escrita adotado favorece a leitura, mas por ser muito amplo afasta o leitor interessado em uma pesquisa mais aprofundada. A impressão colida é a mesma de participar de uma palestra proferida por um generalista que tenta agradar a psicólogos, administradores, pais, educadores etc. Uma excelente estratégia de marketing para sua venda…

Especificamente sobre a educação no contexto da cultura digital (capítulo 5) destaco dois trechos para reflexão. Uma das minhas incomodações é a ênfase dada necessidade da centralização da dinâmica educacional no aluno. O que vemos hoje – e criticamos – é a centralização do mesmo processo no professor. Será que a inversão dessa polarização resolve/melhora o processo de ensino-aprendizagem? Não seria melhor a ênfase no processo de ensino-aprendizagem onde ambos os sujeitos colaboram e participam ativamente como parceiros? Paradoxalmente, os argumentos do autor se apoiam nessa última ideia, mas a polarização no aluno abre a discussão. Isso me aparenta ser uma contradição ou mesmo um descuido.

Em outro trecho o autor relata uma experiência pessoal qualificada como “interativa”, isso na década de 70 e referente a aulas de estatística na Universidade de Albera:

Foi uma das primeiras aulas ministradas on-line – uma revolução educacional do Prof. Steve Hunka, um visionário em educação mediada por computadores. Isso foi antes do advento dos computadores, então ficávamos sentados na frente de um terminal conectado a um retroprojetor controlado por computador. Eu podia parar a exibição a qualquer momento, revisar a matéria e também me testar para ver como andava o meu aprendizado. A prova também era on-line. Não havia aulas expositivas. É bom saber: a aula de estatística é, por definição, uma chatice. Em vez disso tínhamos um horário que podíamos nos encontrar com o dr. Hunka, que não precisava dar aulas expositiva e podia nos dar atenção personalizada. (TAPSCOTT, 2010, p. 163)

Tapscott exagera e confunde o leitor leigo ao assumir ter vislumbrado aulas mediadas por terminais e que esse método seja interativo. Não o é. O que há, de fato, é transmissão de informação com controle limitado à pausa e repetição. A interatividade extrapola – e muito – o simplismo de um controle remoto e de responder “sim” ou “não” (ver Silva, 2000). Contrariando os princípios matéticos da aprendizagem com computadores introduzidos por Seymour Papert (citado várias vezes no livro), o autor cai em uma contradição e reforça a lógica da transmissão (ver Lima & Leal, 2010) efetivando o instrucionismo. Portanto, aquela aula era mais que expositiva: era puramente instrutiva. Assim, a abertura dada pelo “dr. Hunka” para o atendimento personalizado pode ser entendido como o momento salvador daquele processo de ensino-aprendizagem.

Outro exagero é qualificar e generalizar qualquer aula de estatística como “chatice”. Não acredito na inexistência de educadores da matemática que promovam processos de aprendizado efetivos, inovadores e agradáveis aos estudantes. Esse é um dos exemplos da falta de zelo acadêmico do autor.

Um ponto positivo do livro é reforçar e alertar sobre a questão do descompasso escolar frente à demanda da cultura digital. Se as novas gerações crescem imersas na cibercultura – que privilegia a colaboração, a troca interativa, a participação, a possibilidade da autoria e do posicionamento crítico via ciberespaço – então a educação precisa se incluir nessa dinâmica. Não por mero modernismo, mas pelo fato de que os estilos de aprendizado (e consequentemente o de ensino) são antagônicos aos da Era Industrial (padronização, memorização e repetição).

Até mais.

Obras citadas

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010. Acesso alternativo em: http://marcinholima.com.br/publicacoes.php

SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.

TAPSCOTT, Don. A hora da geração digital: Como os jovens que cresceram usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos. Rio de Janeiro: Agir Negócios,. 2010.

Os atuais acontecimentos no Egito tomam conta do noticiário internacional. O mal estar vai além das perniciosas relações de poder, da violência exacerbada e do regime totalitarista, emergindo a supressão da livre expressão via Internet.

Enquanto estrutura da inteligência coletiva – a expressão da vida na cibercultura – o ciberespaço representa forte ameaça às ditaduras e regimes totalitários, que insistem a se impor sem restrição de forças à liberdade da palavra e à produção da informação. O fato foi confirmado em uma matéria do IDGNow de 29/01/2011, que afirma:

Ontem, após retirar o Twitter e o Facebook do ar, o governo do Egito decidiu interromper definitivamente o acesso à Internet no país. Para isso, foi buscar recursos legais e técnicos. Os recursos legais atingiram diretamente os operadores de telefonia móvel e os provedores de acesso. Todos os operadores móveis no Egito foram instruídos a suspender os serviços em áreas selecionadas. Segundo a legislação, as autoridades egípcias têm o direito de emitir essa ordem. O mesmo aconteceu com os provedores de acesso. O governo Mubarak ordenou que provedores cortassem todas as conexões internacionais para a Internet. Todas as rotas para as redes egípcias foram retiradas, quase que simultaneamente, da tabela global de roteamento da Internet.

A restrição do acesso às tecnologias da liberdade via internet é uma questão que afronta diretamente a cidadania. Abro esse espaço em um blog que se dedica à educação na cibercultura como um alerta e um convite a reflexão. Os processos educacionais são, em sua essência, democráticos e precisam estar atentos ao poder transformador das tecnologias digitais. Mais que uma questão de acompanhar o desenvolvimento tecnológico digital, educar assume o direcionamento de seu uso ético e sempre a favor da cidadania. Afinal, a liberdade é mais bem protegida pela luz do que pela sombra (Pierre Lévy em O futuro da Internet: Em direção a uma ciberdemocracia planetária).

Mahmud Ahmadinedschad - Fonte: http://ishr.org

Raúl Castro - Fonte: http://ishr.org

Hugo Chavez - Fonte: http://ishr.org

Kim Jong - Fonte: http://ishr.org

Veja a matéria completa do IDGNow em http://twixar.com/pRwQA1y

Em tempos onde precisamos rever paradigmas sobre “o fazer” e sobre “pensar o fazer”, um vídeo que nos faz refletir sobre as possibilidades cognitivas suportadas pelo ciberespaço.

[videolog 442047]

[videolog 442132]

Embora com certo atraso, hoje tive acesso  ao livro “Futuro da internet – Em direção a uma ciberdemocracia planetária”, que foi lançado em meados de 2010 com autoria compartilhada por André Lemos (UFBA) e Pierre Lévy (University of Ottawa). Trata de uma tradução atualizada e (re)contextualizada por Lemos da obra “Cyberdemocracie: Essai de Philosophie Politique”, do mesmo Lévy e que foi lançada em 2002 na França.

Dedicarei esse post a uma resenha do excelente prefácio escrito por Lévy, o qual é iniciado fornecendo o objetivo da obra: a análise das transformações contemporâneas da esfera pública como resultado da expansão do ciberespaço, salientando perspectivas associadas à democracia.

O livro "O futuro da internet: Em direção a uma ciberdemocracia planetária

Lévy indica o ciberespaço como meio de liberdade da expressão pública, apontando a “computação social” (que diz respeito às funcionalidades da Web 2.0) como processo estruturante de uma memória coletiva e compartilhada em escala global. Nessa nova etapa da internet e da cibercultura os “utilizadores” assumem a criação e a organização de conteúdos (via blog, por exemplo), rompendo com o paradigma da cultura massiva – onde a criação, transmissão, crítica e categorização do conteúdo eram reservadas aos mediadores tradicionais (mídia de massa). Suscintamente, “os indivíduos implicados nas atividades de colaboração e interativas da Web 2.0 […]” atuam “[…] recolhendo, filtrando, redistribuindo, fazendo circular a informação, a influência, a opinião, a atenção e a reputação […]”. Isso implica em um ganho vertiginoso de velocidade e circulação de ideias, “aumentando as possibilidades da inteligência coletiva e, por sua vez, a força do povo”.

Interconexão, criação de comunidade e inteligência coletiva são apontadas pelo filósofo como as três tendências da cibercultura. Concomitantemente, o crescimento do ciberespaço estaria associado ao desenvolvimento desses elementos. Em um breve resgate histórico, Lévy afirma que os 60 anos desde os primórdios da computação representam a pré-história da cibercultura. Aponta que, os esforços empreendidos até o momento quanto a virtualização da informação foram no sentido do desenvolvimento de técnicas de armazenamento, transmissão, tratamento e endereçamento, persistindo uma lacuna que diz respeito ao sentido/interrelacionamento dessas informações.

No final do prefácio Lévy apresenta sua pesquisa em Ottawa que busca resolver o problema da semântica na Web, pois segundo ele “pela primeira vez na história da humanidade o conjunto da memória e da comunicação mundial encontra-se reunido no mesmo ambiente técnico interconectado”, porém de forma fragmentada. Lévy dedica-se à implementação de um sistema de coordenadas no ciberespaço que atenda a requisitos semânticos e não a endereços estáticos (as famosas URLs). Seria uma linguagem que permitiria um entrelaçamento no sentido da informação, independente do sistema e da língua em que ela estivesse codificada. Se efetivada, essa nova forma de recuperação da informação ampliaria ainda mais as possibilidades cognitivas e comunicacionais. Em outras palavras, seria a democratização em escala global da inteligência coletiva.

Vale a pena conferir também essa entrevista com o filósofo: http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1284962-6174,00.html

Até mais!