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O professor Marco Silva (UERJ/UNESA) atualizou o conceito de interatividade associando-o com a educação na cibercultura. Sua tese de doutoramento foi adaptada e editada no livro “Sala de aula interativa” – uma leitura indispensável aos ciberdocentes.

Nesse vídeo, Marco apresenta sua perspectiva e nos convida à interatividade.

Se a cibercultura instiga-nos à leitura e a escrita com os meios digitais, o ensino-aprendizado nessa cultura inspira-nos o (re)posicionamento como professores e alunos mediante as nova possibilidades interativas do virtual.

Aqui temos um “marco” para a Educação 2.0. Está ao nosso alcance o rompimento com a barreira exclusiva da transmissão, a horizontalização da prática pedagógica e o benefício da virtualidade com as interfaces digitais. Depende de nós! Aceita o desafio?

Dedico esse post ao comentário – com certa frustração – do livro “A hora da geração digital” de Don Tapscott, 2010. Segundo os elementos pré-textuais da obra, o autor canadense é professor na Universidade de Toronto e também se dedica à consultoria em estratégia corporativa e transformação organizacional.

Capa do livro "A hora da geração digital"

O livro decepciona pela falta de prudência acadêmica de seu autor em alguns trechos, que são fartos de frases de impacto sugerindo senso comum. O estilo de escrita adotado favorece a leitura, mas por ser muito amplo afasta o leitor interessado em uma pesquisa mais aprofundada. A impressão colida é a mesma de participar de uma palestra proferida por um generalista que tenta agradar a psicólogos, administradores, pais, educadores etc. Uma excelente estratégia de marketing para sua venda…

Especificamente sobre a educação no contexto da cultura digital (capítulo 5) destaco dois trechos para reflexão. Uma das minhas incomodações é a ênfase dada necessidade da centralização da dinâmica educacional no aluno. O que vemos hoje – e criticamos – é a centralização do mesmo processo no professor. Será que a inversão dessa polarização resolve/melhora o processo de ensino-aprendizagem? Não seria melhor a ênfase no processo de ensino-aprendizagem onde ambos os sujeitos colaboram e participam ativamente como parceiros? Paradoxalmente, os argumentos do autor se apoiam nessa última ideia, mas a polarização no aluno abre a discussão. Isso me aparenta ser uma contradição ou mesmo um descuido.

Em outro trecho o autor relata uma experiência pessoal qualificada como “interativa”, isso na década de 70 e referente a aulas de estatística na Universidade de Albera:

Foi uma das primeiras aulas ministradas on-line – uma revolução educacional do Prof. Steve Hunka, um visionário em educação mediada por computadores. Isso foi antes do advento dos computadores, então ficávamos sentados na frente de um terminal conectado a um retroprojetor controlado por computador. Eu podia parar a exibição a qualquer momento, revisar a matéria e também me testar para ver como andava o meu aprendizado. A prova também era on-line. Não havia aulas expositivas. É bom saber: a aula de estatística é, por definição, uma chatice. Em vez disso tínhamos um horário que podíamos nos encontrar com o dr. Hunka, que não precisava dar aulas expositiva e podia nos dar atenção personalizada. (TAPSCOTT, 2010, p. 163)

Tapscott exagera e confunde o leitor leigo ao assumir ter vislumbrado aulas mediadas por terminais e que esse método seja interativo. Não o é. O que há, de fato, é transmissão de informação com controle limitado à pausa e repetição. A interatividade extrapola – e muito – o simplismo de um controle remoto e de responder “sim” ou “não” (ver Silva, 2000). Contrariando os princípios matéticos da aprendizagem com computadores introduzidos por Seymour Papert (citado várias vezes no livro), o autor cai em uma contradição e reforça a lógica da transmissão (ver Lima & Leal, 2010) efetivando o instrucionismo. Portanto, aquela aula era mais que expositiva: era puramente instrutiva. Assim, a abertura dada pelo “dr. Hunka” para o atendimento personalizado pode ser entendido como o momento salvador daquele processo de ensino-aprendizagem.

Outro exagero é qualificar e generalizar qualquer aula de estatística como “chatice”. Não acredito na inexistência de educadores da matemática que promovam processos de aprendizado efetivos, inovadores e agradáveis aos estudantes. Esse é um dos exemplos da falta de zelo acadêmico do autor.

Um ponto positivo do livro é reforçar e alertar sobre a questão do descompasso escolar frente à demanda da cultura digital. Se as novas gerações crescem imersas na cibercultura – que privilegia a colaboração, a troca interativa, a participação, a possibilidade da autoria e do posicionamento crítico via ciberespaço – então a educação precisa se incluir nessa dinâmica. Não por mero modernismo, mas pelo fato de que os estilos de aprendizado (e consequentemente o de ensino) são antagônicos aos da Era Industrial (padronização, memorização e repetição).

Até mais.

Obras citadas

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010. Acesso alternativo em: http://marcinholima.com.br/publicacoes.php

SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.

TAPSCOTT, Don. A hora da geração digital: Como os jovens que cresceram usando a internet estão mudando tudo, das empresas aos governos. Rio de Janeiro: Agir Negócios,. 2010.

Durante a abertura da Semana de Ciências Humanas da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) comecei minha exposição promovendo uma rápida enquete. Questionei aos presentes quantos já haviam adormecido assistindo TV. Em seguida perguntei quantos haviam adormecido utilizando a Internet. A primeira questão teve “sim” como unanimidade de resposta. Já em relação ao segundo questionamento, bastaram os dedos de uma das mãos para a quantificação. As perguntas anteriores buscavam colher argumentos para o estabelecimento de relações entre o modelo transmissivo/unidirecional da TV (que além de massivo é cansativo e gera sono no espectador) e o modus operandi da sala de aula (que muitas vezes replica o esquema da TV: transmissão/audiência passiva).

O efeito TV - Fonte: Howard Kingsnorth/Getty - http://www.guardian.co.uk

A consolidação da Internet – enquanto nova mídia – inaugurou um meio comunicacional dinâmico e com particularidades que, até então, eram indisponíveis nas mídias de massa (liberdade de manifestação, produção de conteúdo e sua publicação etc.). Essas características explicam por si só o sucesso da Internet, afinal: “o surfe na Rede é interativo, já na TV é passivo”. Mas como entender esse “surfar”? E o que fundamenta a “interatividade”?

Steven Johnson em sua obra “Cultura da Interface” de 1997 explica o “cibersurfe” e ao fazê-lo, critica adoção indevida do termo “surfar” no contexto da Internet. O autor nos indica que essa metáfora é uma derivação do “surfe de canais da TV”, deixando claro que a comparação é inadequada ao universo da Web. Uma explicação para isso é que o “surfar entre os canais da TV” se daria por tédio do espectador; já na Internet o “cibersurfe” assume uma característica oposta e incompatível com o sentido anteriormente exposto: na Web o ato de acesso a um site se dá quando o internauta está interessado no assunto ali explorado e não por uma falta de opção ou aborrecimento.  Portanto, o autor defende que o “surfe” sob o paradigma da Web é erroneamente acolhido com uma extensão da multiplicidade de canais televisivos. Nesse sentido, combate a ideia, pois acredita que a concepção menospreza as características definidoras de cada meio.

O professor Marco Silva (“Marco Parangolé”) nos fornece explicações acerca do conceito de interatividade, desenvolvido por ele durante seu trabalho de doutoramento e que se transformou no clássico “Sala de Aula Interativa”, de 2006. Para o educador, a interatividade – uma forma revolucionária de comunicação – fundamenta-se em três pilares: Participação-Intervenção: pelo qual o esquema clássico de comunicação sofre uma mutação, sendo que a mensagem (outrora fechada e intocável) fica passível à intervenção; Bidirecionalidade-Hibridação: do pressuposto anterior, os (inter)agentes da troca comunicativa assumem uma postura de co-autoria e co-participação na construção dialógica – rompe-se, portanto, com o esquema clássico que impõe a separação emissor-receptor; Potencialidade-Permutabilidade: cria-se um “mais comunicacional” onde o discurso construído é múltiplo e aberto, ou seja: a liberdade de intervenção na mensagem e a troca colaborativa multidirecional, permitem que emissores/receptores codifiquem e decodifiquem alterando seus atributos na nova lógica de comunicabilidade. Os três pressupostos do conceito de interação de Silva (2006) são interdependentes, complementares e delegam a todos os sujeitos envolvidos o caráter da não passividade ao interagir.

Ao aproximar esses conceitos do contexto educacional, percebemos a (re)estruturação de uma “pedagogia interativa”, que pressupõe o rompimento com a lógica da transmissão (já debatida no post https://cibereducacao.wordpress.com/2010/09/07/ciberpedagogia-supendo-a-logica-da-transmissao/). Com ela fica fortalecido um estilo de ensino-aprendizagem onde imperam a liberdade dialógica, a cooperação, co-criação, a horizontalização entre as relações entre professores e alunos, a reconstrução do conceito de avaliação e, soberanamente, uma nova forma de (re)construção de conhecimentos onde todos os sujeitos envolvidos precisam ser ativos. Vale lembrar que todos esses indicativos encontram respaldo nas funcionalidades das ferramentas da Web 2.0 (blogs, vblogs, wikis, fóruns etc.), os quais podem ser utilizados – com intencionalidade pedagógica – na reconfiguração da prática educativa no contexto da cibercultura, ou como venho denominando: cibereducação. Mais que uma questão do mero uso da tecnologia digital no ambiente educacional, encontramos a possibilidade da inovação pedagógica com significativo ganho de aprendizagem.

Para saber mais:

Johnson, Steven. Cultura da Interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 2001.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.

SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.

Quando agenda de estudos aponta para uma maior compreensão da cibercultura, o tunisiano Pierre Lévy é um dos referenciais indispensáveis. O filósofo teoriza o assunto desde a década de 90 do século passado, destacando-se como referências bibliográficas essenciais: “As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática” de 1992, “O que é o virtual?” de 1996 e “Cibercultura” de 1999.

Especificamente na obra de 1996, Lévy constrói o conceito de virtualização como uma dinâmica fecunda, potencializadora de realizações e que permite novas formas de criação. O autor aponta a origem do termo “virtual” no latim virtualis, que é derivante de virtus: força, potência. A ideia de que “virtual” – enquanto ausência de existência – é o oposto do “real” – enquanto presença tangível – é apontada pelo filósofo como enganosa e de senso comum. Assim, quando uma entidade é virtualizada abrem-se espaços para reconfigurações e complexificações da realidade. Lévy exemplifica esse fato com a virtualização das organizações. Nesse sentido, o escopo de transformações espaço-temporais é elucidado: o trabalho virtual flexibiliza o horário e dispensa a estrutura espacial do empreendimento, bem como a presença física dos trabalhadores. A nova configuração do trabalho baseia-se em uma rede de colaboração sustentada por ferramentas de comunicação eletrônica e por sistemas que facilitam a cooperação.

Assim, a virtualização revela-se como um movimento inovador e criativo, que permite novas perspectivas de ação tendo como características intrínsecas o “desprendimento do aqui e do agora”. Indispensável o tensionamento crítico acerca de que o virtual não deve ser encardo como substituto imediato do real (LÉVY, 1999). Ambas as configurações não são excludentes, mas complementares e coexistentes.

Quando buscamos a aproximação dessa discussão da esfera escolar, podemos perceber que ela lhe é perfeitamente compatível. A “escola virtual” também se sujeita a uma nova configuração espaço-temporal, na qual são recriados seus processos de funcionamento, rompem-se as barreiras de deslocamento e presença física de seus sujeitos e abrem-se oportunidades interativas para a comunicação nas ferramentas típicas da virtualidade. Esse conjunto de transformações aponta para a instauração de uma nova realidade para escola.

Obviamente, essa atualização no cotidiano escolar traz consigo desdobramentos para a comunidade escolar, instaurando-se novas formas de convivência e operacionalização da intencionalidade educativa. No que diz respeito à docência, por exemplo, perde espaço o professor repassador de conhecimento e surge uma nova perspectiva:

O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão ao seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca dos saberes, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc (LÉVY, 1999, p.171).

Assim, o papel do professor na “escola virtual” é o de provocar interações e o uso das ferramentas de (re)construção do conhecimento, propor desafios e aprender em conjunto com os alunos. Essa postura complexifica a ação do “professor entregador de conteúdos”, possibilitando o questionamento crítico, o debate, o incentivo à pesquisa e à aprendizagem colaborativa e contínua.

Do lado discente, o sujeito precisa estar ciente de que está inserido em uma dinâmica onde ele não é um espectador. Pelo contrário, ele deve se envolver e usufruir do potencial comunicativo oferecido pelas ferramentas virtuais e pelas propostas de discussão colaborativa, buscando ir além da compreensão/memorização de conceitos isolados. Dessa forma, o educando possui a responsabilidade de situar o seu grau de aprendizagem e de (re)agir, ponderando seu nível de envolvimento com a (re)construção de seu conhecimento.

Definitivamente, se olharmos para o possível ganho de qualidade no processo de ensino-aprendizagem de tal abordagem, o virtual potencializa o atual da escola tradicional.

Um abraço e até o próximo post.

Referências Bibliográficas

LÉVY. Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era dainformática. Tradução: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

LÉVY. Pierre. O que é o virtual. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1996.

LÉVY. Pierre. Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.

Historicamente, a introdução dos computadores na educação tendeu a reproduzir o ensino através de máquinas. Em 1924, Sidney Pressey, arquitetou uma máquina para a correção de testes de múltipla escolha. Posteriormente, em 1950, Burrhus Frederic Skinner propôs sua máquina de ensinar, baseada na instrução programada. As máquinas de ensinar foram propostas por Skinner como uma alternativa aos impasses que surgiram em decorrência das demandas de atendimento individual aos aprendizes.

Esse modelo de instrução foi bastante utilizado nas décadas de 50 e 60, mas foi com o advento do computador que ele passou a contar com flexibilidade e se aprimorou. Ainda que o uso de computadores fosse muito restrito e de elevado custo, empresas especializadas tais como a IBM e a RCA passaram a investir na produção de softwares que inauguram a instrução auxiliada por computador, ou Computer Aided Instruction (CAI) ainda na década de 60. Com o advento dos microcomputadores na década de 80, o software CAI ganhou força, o que representou o início do processo de inserção dos computadores nas escolas, principalmente nos países desenvolvidos. No CAI tem-se a primeira situação do uso do computador no contexto educacional como de uma máquina de ensinar aprimorada.

Modelo Instrucionista via computador

A figura acima sintetiza o modelo instrucionista de ensino mediado pelo computador. Em um primeiro momento, o computador é provido das informações que serão ministradas ao aluno. Essa ação de municiar o computador com as atividades programadas para o ensino é realizada por meio da instalação de um software do tipo CAI ou um dado conteúdo educacional. O processo de transmissão de conteúdos programados se perpetua quando um aluno faz uso do computador e, através dele, recebe o “pacote de informações” previamente programado. O aluno é o espectador para um volume de conhecimentos pré-determinados, pois, na maioria dos softwares de CAI, a interação existente entre o discente e o computador limita-se ao fornecimento de respostas a exercícios e a avanços ou retrocessos no conteúdo. Notadamente, um modelo unidirecional, individual e não colaborativo.

A abordagem instrucionista teve e continua a ter espaço dentro do cenário da educação. Foi a partir dela que os computadores começaram a ser difundidos nos ambientes escolares, sendo isso um ponto de partida para a criação de reflexões e novas possibilidades. Uma delas é que o uso do computador em um ambiente de aprendizagem pode e precisa extrapolar a automatização da transmissão de conteúdos programáticos, isso porque os ambientes educacionais necessitam de recursos que estimulem o pensamento crítico e a expressão de idéias de forma individual e coletiva.

Silva (2008, p.69) defende que “a dinâmica comunicacional da cibercultura e das interfaces de comunicação online entram em conflito com os fundamentos e práticas do ensino tradicional […]”. Nota-se, portanto, que se devidamente utilizados os recursos oferecidos pelo computador online podem viabilizar nova perspectiva para um processo educador criativo, fundamentalmente comunicativo, expressivo e contrário à reprodução. Não se trata de ignorar o valor da instrução, mas o de reconhecer que ela sozinha não é suficiente para a efetivação da construção de conhecimento.

Nos próximos posts vou ampliar essa discussão. Mas fica a pergunta: já conseguimos romper com a lógica da transmissão na educação?


Para ir além e saber mais:

Conheça o site do Porfessor Marco Silva (UERJ/Estácio): http://www.saladeaulainterativa.pro.br/

Leia o artigo: http://www.marcinholima.com.br/artigos/ciberpedagogia.pdf

Conheça também a dissertação:  http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=151294

Referência bibliográfica citada:

SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.