Arquivo de novembro, 2010

Durante a abertura da Semana de Ciências Humanas da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) comecei minha exposição promovendo uma rápida enquete. Questionei aos presentes quantos já haviam adormecido assistindo TV. Em seguida perguntei quantos haviam adormecido utilizando a Internet. A primeira questão teve “sim” como unanimidade de resposta. Já em relação ao segundo questionamento, bastaram os dedos de uma das mãos para a quantificação. As perguntas anteriores buscavam colher argumentos para o estabelecimento de relações entre o modelo transmissivo/unidirecional da TV (que além de massivo é cansativo e gera sono no espectador) e o modus operandi da sala de aula (que muitas vezes replica o esquema da TV: transmissão/audiência passiva).

O efeito TV - Fonte: Howard Kingsnorth/Getty - http://www.guardian.co.uk

A consolidação da Internet – enquanto nova mídia – inaugurou um meio comunicacional dinâmico e com particularidades que, até então, eram indisponíveis nas mídias de massa (liberdade de manifestação, produção de conteúdo e sua publicação etc.). Essas características explicam por si só o sucesso da Internet, afinal: “o surfe na Rede é interativo, já na TV é passivo”. Mas como entender esse “surfar”? E o que fundamenta a “interatividade”?

Steven Johnson em sua obra “Cultura da Interface” de 1997 explica o “cibersurfe” e ao fazê-lo, critica adoção indevida do termo “surfar” no contexto da Internet. O autor nos indica que essa metáfora é uma derivação do “surfe de canais da TV”, deixando claro que a comparação é inadequada ao universo da Web. Uma explicação para isso é que o “surfar entre os canais da TV” se daria por tédio do espectador; já na Internet o “cibersurfe” assume uma característica oposta e incompatível com o sentido anteriormente exposto: na Web o ato de acesso a um site se dá quando o internauta está interessado no assunto ali explorado e não por uma falta de opção ou aborrecimento.  Portanto, o autor defende que o “surfe” sob o paradigma da Web é erroneamente acolhido com uma extensão da multiplicidade de canais televisivos. Nesse sentido, combate a ideia, pois acredita que a concepção menospreza as características definidoras de cada meio.

O professor Marco Silva (“Marco Parangolé”) nos fornece explicações acerca do conceito de interatividade, desenvolvido por ele durante seu trabalho de doutoramento e que se transformou no clássico “Sala de Aula Interativa”, de 2006. Para o educador, a interatividade – uma forma revolucionária de comunicação – fundamenta-se em três pilares: Participação-Intervenção: pelo qual o esquema clássico de comunicação sofre uma mutação, sendo que a mensagem (outrora fechada e intocável) fica passível à intervenção; Bidirecionalidade-Hibridação: do pressuposto anterior, os (inter)agentes da troca comunicativa assumem uma postura de co-autoria e co-participação na construção dialógica – rompe-se, portanto, com o esquema clássico que impõe a separação emissor-receptor; Potencialidade-Permutabilidade: cria-se um “mais comunicacional” onde o discurso construído é múltiplo e aberto, ou seja: a liberdade de intervenção na mensagem e a troca colaborativa multidirecional, permitem que emissores/receptores codifiquem e decodifiquem alterando seus atributos na nova lógica de comunicabilidade. Os três pressupostos do conceito de interação de Silva (2006) são interdependentes, complementares e delegam a todos os sujeitos envolvidos o caráter da não passividade ao interagir.

Ao aproximar esses conceitos do contexto educacional, percebemos a (re)estruturação de uma “pedagogia interativa”, que pressupõe o rompimento com a lógica da transmissão (já debatida no post https://cibereducacao.wordpress.com/2010/09/07/ciberpedagogia-supendo-a-logica-da-transmissao/). Com ela fica fortalecido um estilo de ensino-aprendizagem onde imperam a liberdade dialógica, a cooperação, co-criação, a horizontalização entre as relações entre professores e alunos, a reconstrução do conceito de avaliação e, soberanamente, uma nova forma de (re)construção de conhecimentos onde todos os sujeitos envolvidos precisam ser ativos. Vale lembrar que todos esses indicativos encontram respaldo nas funcionalidades das ferramentas da Web 2.0 (blogs, vblogs, wikis, fóruns etc.), os quais podem ser utilizados – com intencionalidade pedagógica – na reconfiguração da prática educativa no contexto da cibercultura, ou como venho denominando: cibereducação. Mais que uma questão do mero uso da tecnologia digital no ambiente educacional, encontramos a possibilidade da inovação pedagógica com significativo ganho de aprendizagem.

Para saber mais:

Johnson, Steven. Cultura da Interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 2001.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.

SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.

A popularização da informática proporcionou o acesso às ferramentas computacionais, possibilitando sua utilização em diferentes tarefas, preponderantemente: a organização, armazenamento, pesquisa, manipulação e disseminação de informações em rede. Essas são as funções essenciais dos sistemas de recuperação da informação (SRI), que com os recursos do ciberespaço foram reconfigurados.

De forma simplificada pode-se dizer que o processo de recuperação da informação consiste em identificar, no conjunto de documentos de um acervo, aqueles que atendem a uma determinada necessidade de um usuário, o que é esquematizado abaixo.

A recuperação da informação em um SRI

A recuperação da informação em um SRI

A reconfiguração dos SRI para uso no ciberespaço tornou possível a ampliação das possibilidades de acesso e interação com um acervo digitalizado. Isso em termos de disponibilidade (tempo e espaço) e manipulação digital do documento (download, destaques, comentários etc). Efetivamente, um pesquisador já não precisa mais deslocar-se fisicamente até as fontes primárias para proceder às suas atividades. Com as ferramentas de recuperação da informação no ciberespaço, ampliaram-se não apenas as capacidades de buscas interativas ao acervo, mas também a comodidade de acessá-lo remotamente – inclusive com o acesso visual aos documentos digitalizados. Além disso, consegue-se a preservação física da fonte primária que, muitas das vezes, podem ser documentos históricos ou raros.

Durante o IV Simpósio Nacional da ABCiber (Associação Brasileira de Pesquisadores em Ciberculturahttp://abciber.org), que ocorreu na UFRJ de 01/11 a 03/11/2010, relatamos um projeto que contempla a criação de um ciberacervo. O trabalho foi apresentado em forma de artigo científico (http://www.marcinholima.com.br/artigos/abciber2010x.pdf ) e de uma apresentação oral, que descreve a experiência do Laboratório de Conservação e Pesquisa Documental (LABDOC) da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). O trabalho realizado no Laboratório abrange a conservação preventiva de acervos documentais históricos, sua organização, catalogação e digitalização para posterior pesquisa mediada pelas ferramentas do ciberespaço. O link da apresentação é http://prezi.com/bin/preziloader.swf

O projeto desenvolvido pelo LABDOC/UFSJ é o resultado do trabalho com as fontes de pesquisa ao longo de 15 anos, em cartórios das cidades de São João del-Rei, Oliveira e Conselheiro Lafaiete (todas em Minas Gerais). O produto final – uma ferramenta de recuperação de informações digitalizadas no ciberespaço – agrega um banco de dados contendo processos cíveis e criminais, testamentos, livros de querela e inventários. Por tratar de documentos públicos, a ferramenta de pesquisa – que é de natureza gratuita e baseada em softwares livres – consolida-se com uma forma democrática de acesso à pesquisa sobre a memória histórica da região, podendo constituir-se com um modelo para outros sítios.

Para saber mais
http://www.marcinholima.com.br/artigos/abciber2010x.pdf – Artigo “Reflexos da cibercultura: a democratização do acesso à memória histórica documental ” – Apresentado durante o IV Simpósio Nacional da ABCiber
http://documenta.ufsj.edu.br – Fórum documenta – Ferramenta de acesso ao ciberarquivo relatado