Arquivo de setembro, 2010

Os Flintstones e os Jatsons - Uma reconfiguração - Fonte: Google Imagens

Os Flintstones e os Jatsons - Uma reconfiguração - Fonte: Google Imagens

The Flintstones” e “The Jetsons” foram séries de animação contemporâneas na década de 60 e foram criados pela dupla de cartunistas estadunidenses William Hanna e Joseph Barbera. Os Flintstones viviam suas aventuras na “Idade da Pedra”, já os Jetsons em uma “Era Futurista”. As sátiras nas animações diziam respeito ao cotidiano do trabalho, ao lazer e principalmente às novas invenções tecnológicas e sua relação com o contexto social, cada uma em conformidade ao seu tempo na linha de evolução da humanidade.

É importante observar que “The Flintstones” e “The Jetsons” foram animações produzidas durante a Guerra Fria e meio a corrida espacial. Quem liderou e foi a pioneira no início da disputa pelo espaço sideral foi a antiga União Soviética, que promoveu o lançamento do satélite Sputnik em 04 de Outubro de 1957. Tal acontecimento foi um marco na história e foi sucedido por inúmeros avanços na área por parte dos soviéticos. Atrasados na corrida espacial, os norte-americanos reagiram com programas de lançamentos de satélites, projeto de capsulas e sondas espaciais, isso durante toda a década de 60. Finalmente, foi em 20 de julho de 1969 a Apollo 11 levou Neil A. Armstrong até a Lua. Vitória dos E.U.A.. Coincidência ou não, esses fatos ocupavam lugar central do imaginário da época da produção dos desenhos animados.

Mas o que isso tem a ver com a cibercultura?

Por serem antagônicas na linha temporal, mas tratarem exatamente dos mesmos assuntos, as animações (Flintstones e Jetsons) mostram – com boa dose de humor e exagero – o redesenho do cenário social em virtude da apropriação por parte dos personagens das tecnologias existentes. Assim, de uma série para outra, carros, casas, roupas, o lazer, animais de estimação, o trabalho, entre outros, eram transfigurados.

Lemos (2003) introduziu as “Leis da Cibercultura”, das quais aqui se enfatiza o princípio da reconfiguração. Esse princípio relaciona-se com o realinhamento de práticas, espaços e mídias ao cenário emergido, tendo em vista a popularização das tecnologias digitais. É nesse sentido que a corrida espacial foi definitiva para o desenvolvimento da microeletrônica e, consequentemente, de tais tecnologias.

Mas como entender tal reconfiguração? De forma nenhuma ela deve ser assumida como extinção ou substituição de formatos antecedentes. Lemos (2005) alerta para um erro comum ao se analisar/interpretar essa nova configuração: a cibercultura não decreta o fim do meio analógico e massivo, nem mesmo sua substituição pelo digital e personalizado. Efetivamente o que ocorre é sua transformação inovadora, sendo possível a convivência simbiótica entre ambos os formatos.

Talvez o maior marco da cibercultura – e de todas as transformações inerentes – seja o início da internet. A rede também nasceu dos esforços da Guerra Fria: se os soviéticos eram capazes de lançar foguetes ao espaço, poderiam igualmente lançá-los contra os rivais norte-americanos. O pavor de uma batalha nuclear era eminente. Os americanos passaram a conviver com a necessidade de inovar os seus mecanismos de comunicação, diminuindo a vulnerabilidade de ataques ao Pentágono, centro militar estadunidense. Foi daí que surgiu a ARPANET (1969), uma rede de comunicação descentralizada que ligava militares e pesquisadores sem ter um centro definido ou uma rota única para as informações. Nascia ali, e com apenas quatro pontos interligados, o que virou hoje a internet.

ARPANET - Diagrama original de 1969

Como fica a educação nesse cenário?

As reconfigurações são típicas da cultura digital ou da cibercultura. Esses fatos foram muitíssimo bem ilustrados pelas animações de Hanna-Barbera acima mencionadas. Sátiras a parte, é inegável que a ação humana em todas as áreas de conhecimento passou/passa por constantes aprimoramentos, dado o advento, expansão, consolidação e apropriação das tecnologias da informação e comunicação por parte da sociedade. A compreensão desse cenário mutante, que estabelece novas formas de se lidar como saber, é indispensável para se compreender o papel da escola e da prática pedagógica na cibercultura. É certo que a evolução das tecnologias digitais dá abertura para as invocações no campo da educação. Nesse sentido, educação também precisa ser reconfigurada – mesmo que muito lentamente – compatibilizando-se com o espírito de uma nova época. Os costumes, as ações, as mídias e os estilos de aprendizagem são todos novos, entretanto a escola insiste em pressupostos de tempos retrógrados.

Sem essa percepção não podemos nos instrumentalizar para a cibereducação, que traz consigo novos pressupostos para a ação docente e discente, além da reconfiguração do conceito de planejamento e currículo escolar. Tentar inovar a prática pedagógica incorporando as tecnologias digitais dentro de paradigmas estanques, conteudistas e fragmentados é subutilização vazia dos recursos digitais, ou seja: mais do mesmo em uma roupagem vanguardista.

Até o próximo post, um abraço.

Referências citadas

LEMOS, A. Cibercultura: alguns pontos para compreender a época.  In LEMOS, A. & CUNHA, P. (orgs), Olhares sobre a cibercultura, Porto Alegre, Sulina, 2003.

LEMOS, A. Ciber-cultura-remix. In: Seminário Sentidos e Processos, São Paulo, Itaú Cultural, 2005.

A associação ao computador é recorrente quando se pensa na combinação entre tecnologia e processos educacionais. Entretanto, em uma abordagem histórica e etnologicamente ampliada, não se pode esquecer que o termo “tecnologia educacional” inclui todos os tipos de equipamentos que se fazem úteis ao ensino-aprendizagem, tais como: o quadro, um equipamento de laboratório de ciências, um retroprojetor etc. Dessa maneira, constata-se que ao longo da história da educação diferentes dispositivos tecnológicos vêm sendo incorporados ao fazer pedagógico.

Ainda assim, a afirmativa de que os ambientes educacionais são pobres em recursos que estimulem o pensamento e a expressão de ideias é habitual. São muito comuns processos pedagógicos baseados na transmissão e reprodução de conteúdos, na repetição e memorização de informações.

Caricatura do método transmissivo de ensino. Fonte: HARPER, Babette et al, 1980, p.48.

O educador Paulo Freire criticava tais práticas valendo-se da metáfora onde a escola seguia um “modelo bancário”, no qual pequenas porções de informações seriam depositadas na mente dos educandos pelos professores, em conformidade ao que acontece com dinheiro em uma conta corrente. Nesse modelo de escola, o currículo é estanque, os conteúdos fragmentados e desconexos, e a transmissão de informações é a principal – senão a única – via de interação entre os sujeitos do processo educacional. Perpetua-se, portanto, a lógica transmissiva e o vazio de aprendizagem proporcionado pelo sistema educativo baseado exclusivamente na instrução.

Cabe então questionar se a incorporação dos recursos tecnológicos nos processos educativos contribuiu (ou vem contribuindo) para romper com essa perspectiva. Na verdade, faz-se necessário estimular o uso do computador como ferramenta que coloca o educando como (inter)agente no processo educacional, possibilitando uma readequação de sua posição de consumidor de informações.

A “lógica da transmissão” teve (e ainda tem) seu lugar na própria internet. Em sua primeira configuração (WEB 1.0), a rede se revelava como um grande repositório de informações para serem consultadas pelos usuários. Vigorava o modelo broadcasting (um para todos): unilateral e antidialógico. Entretanto, em sua primeira reconfiguração surgiu a WEB 2.0. Nessa nova perspectiva, o “usuário” passou a contar com a possibilidade de superar sua condição de espectador/consumidor de informações. Isso foi possível devido ao advento de inúmeras ferramentas no ciberespaço (blogs, vídeo-blogs, wikis etc) que permitem a produção e compartilhamento de conteúdos. Tais funcionalidades são em sua maioria gratuitas, de livre acesso e uso.

Ao se adotar uma ferramenta da WEB 2.0 como recurso pedagógico, deve-se ter claramente definida uma intencionalidade educativa. Utilizar uma ferramenta digital apenas como “modismo” é virtualizar o que é tradicionalmente explorado na sala de aula, sem ganho para a aprendizagem.

Para fazer valer efetivamente a incorporação de recursos como os apresentados, professores e alunos precisam envolver-se em propostas interativas que têm as plataformas da WEB2.0 como ponto de partida para a construção da aprendizagem. Usar as ferramentas do ciberespaço apenas para divulgar conteúdos para estudo é recair na já sedimentada lógica da transmissão, que é muito melhor explorada com as aulas meramente expositivas e material textual convencional.

O importante nessa nova perspectiva educacional é buscar motivar a participação colaborativa nas ferramentas, abrindo espaços para os debates, (re)significações, associações entre conhecimentos já adquiridos etc. Aqui temos uma possível releitura/reconfiguração do que Paulo Freire (1983) preconizava: “A educação autentica não se faz de A para B ou de B sobre A, mas de A com B, mediatizados pelo mundo“.

Até a próxima.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 12 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983.

HARPER, B. et al. Cuidado: escola, desigualdade, domesticação e algumas saídas. 25.ed. São Paulo: Brasiliense, 1980.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.