Arquivo de outubro, 2010

Quando agenda de estudos aponta para uma maior compreensão da cibercultura, o tunisiano Pierre Lévy é um dos referenciais indispensáveis. O filósofo teoriza o assunto desde a década de 90 do século passado, destacando-se como referências bibliográficas essenciais: “As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática” de 1992, “O que é o virtual?” de 1996 e “Cibercultura” de 1999.

Especificamente na obra de 1996, Lévy constrói o conceito de virtualização como uma dinâmica fecunda, potencializadora de realizações e que permite novas formas de criação. O autor aponta a origem do termo “virtual” no latim virtualis, que é derivante de virtus: força, potência. A ideia de que “virtual” – enquanto ausência de existência – é o oposto do “real” – enquanto presença tangível – é apontada pelo filósofo como enganosa e de senso comum. Assim, quando uma entidade é virtualizada abrem-se espaços para reconfigurações e complexificações da realidade. Lévy exemplifica esse fato com a virtualização das organizações. Nesse sentido, o escopo de transformações espaço-temporais é elucidado: o trabalho virtual flexibiliza o horário e dispensa a estrutura espacial do empreendimento, bem como a presença física dos trabalhadores. A nova configuração do trabalho baseia-se em uma rede de colaboração sustentada por ferramentas de comunicação eletrônica e por sistemas que facilitam a cooperação.

Assim, a virtualização revela-se como um movimento inovador e criativo, que permite novas perspectivas de ação tendo como características intrínsecas o “desprendimento do aqui e do agora”. Indispensável o tensionamento crítico acerca de que o virtual não deve ser encardo como substituto imediato do real (LÉVY, 1999). Ambas as configurações não são excludentes, mas complementares e coexistentes.

Quando buscamos a aproximação dessa discussão da esfera escolar, podemos perceber que ela lhe é perfeitamente compatível. A “escola virtual” também se sujeita a uma nova configuração espaço-temporal, na qual são recriados seus processos de funcionamento, rompem-se as barreiras de deslocamento e presença física de seus sujeitos e abrem-se oportunidades interativas para a comunicação nas ferramentas típicas da virtualidade. Esse conjunto de transformações aponta para a instauração de uma nova realidade para escola.

Obviamente, essa atualização no cotidiano escolar traz consigo desdobramentos para a comunidade escolar, instaurando-se novas formas de convivência e operacionalização da intencionalidade educativa. No que diz respeito à docência, por exemplo, perde espaço o professor repassador de conhecimento e surge uma nova perspectiva:

O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão ao seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca dos saberes, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc (LÉVY, 1999, p.171).

Assim, o papel do professor na “escola virtual” é o de provocar interações e o uso das ferramentas de (re)construção do conhecimento, propor desafios e aprender em conjunto com os alunos. Essa postura complexifica a ação do “professor entregador de conteúdos”, possibilitando o questionamento crítico, o debate, o incentivo à pesquisa e à aprendizagem colaborativa e contínua.

Do lado discente, o sujeito precisa estar ciente de que está inserido em uma dinâmica onde ele não é um espectador. Pelo contrário, ele deve se envolver e usufruir do potencial comunicativo oferecido pelas ferramentas virtuais e pelas propostas de discussão colaborativa, buscando ir além da compreensão/memorização de conceitos isolados. Dessa forma, o educando possui a responsabilidade de situar o seu grau de aprendizagem e de (re)agir, ponderando seu nível de envolvimento com a (re)construção de seu conhecimento.

Definitivamente, se olharmos para o possível ganho de qualidade no processo de ensino-aprendizagem de tal abordagem, o virtual potencializa o atual da escola tradicional.

Um abraço e até o próximo post.

Referências Bibliográficas

LÉVY. Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era dainformática. Tradução: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

LÉVY. Pierre. O que é o virtual. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1996.

LÉVY. Pierre. Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.

Quando ligamos nossos dispositivos eletrônicos, os quais estabelecem nosso elo com o ciberespaço, talvez não percebemos o hiato temporal que os poucos segundos de carga do sistema operacional representam. Superado tal intervalo de tempo, as janelas, os ícones, hiperlinks e todos os aplicativos ficam ao alcance de um clique, o que nos permite múltiplas possibilidades de interatividade no mundo digital.

Com Steven Johnson, logo na introdução de seu livro “Cultura da Interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar”, aprendemos que as telas digitais são a forma simbólica de nossa era: a cibercultura. Voltando no tempo e pensando em 1946, mais precisamente na forma de interação com o ENIAC (Electrical Numerical Integrator and Computer), notamos o quanto era complexa e distanciada da realidade a interação homem–computador. A manipulação daquele Computador se efetivava via cabeamentos e/ou chaveamentos que forneciam instruções para processamento utilizando a “linguagem de máquina” ou “linguagem binária”. As respostas de processamento eram representadas por lâmpadas que ascendiam ou apagavam em um painel.

Johnson (2001) vem nos mostrar que as atuais interfaces revelam a arte de representar zeros e uns nas telas digitais e nos convida a conhecer as origens do que representou o início de uma nova era para a humanidade. Em 1968 – vinte e dois anos após o ENIAC – Douglas Engelbart introduziu um produto inovador e que minimizava significativamente a complexidade do processo de operação/comunicação com o computador. O “On-Line system” era um ambiente integrado que se valia de ferramentas e conceitos, como: dispositivo apontador para tela (mouse), ligações via hipertexto e “janelas”. Ou seja: o “espaço-informação”.

Um novo curso para história da humanidade ganhara ali o seu contorno. O trabalho de Engelbart inspirou os pesquisadores da Xerox a criarem a interface gráfica, mas a diretoria da empresa norte-americana não apostou na ideia.

A interface da Xerox - "Smalltalk" - Fonte: http://digibarn.com

A interface da Xerox - "Smalltalk" - Fonte: http://digibarn.com

Então, entrou em cena outro personagem símbolo da cultura digital: Steeve Jobs (Apple Computer). O protótipo da interface gráfica da Xerox foi apresentado a Jobs, que reconheceu sua originalidade e se apropriou da ideia, concretizando-a no Macintosh (1984).

A interface do Macintosh em 1984 - Fonte: comicmix.com

Em um cenário muito controverso, mais um protagonista da história dos bits também demarcava seu território: William Henry Gates II, mais conhecido como Bill Gates (Microsoft). Na década de 80, Gates fechou contrato com a também norte-americana IBM, que visava o mercado de computadores pessoais (PCs) – naquela época a Microsoft licenciava o software que tornava os IBM-PCs funcionais: o MS-DOS. Impulsionado pelo avanço da interface do Macintosh, Bill Gates e equipe criaram o Windows, que tinha semelhanças com o sistema da Apple (que havia derivado das pesquisas da Xerox). O fato rendeu uma disputa judicial, na qual a Apple não teve sucesso.

A interface do Windows 3.1 em 1992. Fonte: http://www.theknowledgeplace.com/

Conflitos a parte, o certo é que as telas digitais passaram a organizar nosso mundo. Voltando a Johnson (2001), encontramos a afirmação de que a revolução digital aconteceu pelo fato do computador ter passado a representar-se a si mesmo ao usuário, em uma linguagem que ele compreendia: as interfaces. Ou seja, ao utilizarmos as diferentes possibilidades de interação nas telas digitais, experienciamos uma reconfiguração da forma de lidar com a informação. Dessa forma, o autor associa o poder dos computadores atuais a essa capacidade de auto-representação, sendo que “a interface torna o mundo prolífico dos zeros e uns perceptível para nós” ( JOHNSON, 2001, p.19).

Como na vida real, as janelas do virtual passaram a ser nosso ponto de contato com o mundo digital. Por elas vamos aos bancos, às escolas, às compras, aos museus, localizamos pontos longínquos da Terra, conversamos com nossos afins, conhecemos novas pessoas, desenhamos, projetamos, enfim: assumimos nossa identidade digital. Especificamente para o cenário educacional, é muito importante a análise crítica das ferramentas digitais que estão disponíveis. Isso, para buscarmos explorar suas funcionalidades com vista ao ganho de aprendizagem e também para manter uma tensão crítica que promova seus melhoramentos. Nos próximos posts buscaremos traçar paralelos entre o pensamento de Johnson (2001) e as ferramentas educacionais digitais, apontando suas funcionalidades e precariedades. Até lá.

Para conhecer mais

http://www.stevenberlinjohnson.com/

Diversos tipos de interface: http://toastytech.com/guis/alto3.html (indicação de Fernando Vieira)

Referência bibliográafica

Johnson, Steven. Cultura da Interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 2001.