Quando agenda de estudos aponta para uma maior compreensão da cibercultura, o tunisiano Pierre Lévy é um dos referenciais indispensáveis. O filósofo teoriza o assunto desde a década de 90 do século passado, destacando-se como referências bibliográficas essenciais: “As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática” de 1992, “O que é o virtual?” de 1996 e “Cibercultura” de 1999.

Especificamente na obra de 1996, Lévy constrói o conceito de virtualização como uma dinâmica fecunda, potencializadora de realizações e que permite novas formas de criação. O autor aponta a origem do termo “virtual” no latim virtualis, que é derivante de virtus: força, potência. A ideia de que “virtual” – enquanto ausência de existência – é o oposto do “real” – enquanto presença tangível – é apontada pelo filósofo como enganosa e de senso comum. Assim, quando uma entidade é virtualizada abrem-se espaços para reconfigurações e complexificações da realidade. Lévy exemplifica esse fato com a virtualização das organizações. Nesse sentido, o escopo de transformações espaço-temporais é elucidado: o trabalho virtual flexibiliza o horário e dispensa a estrutura espacial do empreendimento, bem como a presença física dos trabalhadores. A nova configuração do trabalho baseia-se em uma rede de colaboração sustentada por ferramentas de comunicação eletrônica e por sistemas que facilitam a cooperação.

Assim, a virtualização revela-se como um movimento inovador e criativo, que permite novas perspectivas de ação tendo como características intrínsecas o “desprendimento do aqui e do agora”. Indispensável o tensionamento crítico acerca de que o virtual não deve ser encardo como substituto imediato do real (LÉVY, 1999). Ambas as configurações não são excludentes, mas complementares e coexistentes.

Quando buscamos a aproximação dessa discussão da esfera escolar, podemos perceber que ela lhe é perfeitamente compatível. A “escola virtual” também se sujeita a uma nova configuração espaço-temporal, na qual são recriados seus processos de funcionamento, rompem-se as barreiras de deslocamento e presença física de seus sujeitos e abrem-se oportunidades interativas para a comunicação nas ferramentas típicas da virtualidade. Esse conjunto de transformações aponta para a instauração de uma nova realidade para escola.

Obviamente, essa atualização no cotidiano escolar traz consigo desdobramentos para a comunidade escolar, instaurando-se novas formas de convivência e operacionalização da intencionalidade educativa. No que diz respeito à docência, por exemplo, perde espaço o professor repassador de conhecimento e surge uma nova perspectiva:

O professor torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos que estão ao seu encargo. Sua atividade será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca dos saberes, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc (LÉVY, 1999, p.171).

Assim, o papel do professor na “escola virtual” é o de provocar interações e o uso das ferramentas de (re)construção do conhecimento, propor desafios e aprender em conjunto com os alunos. Essa postura complexifica a ação do “professor entregador de conteúdos”, possibilitando o questionamento crítico, o debate, o incentivo à pesquisa e à aprendizagem colaborativa e contínua.

Do lado discente, o sujeito precisa estar ciente de que está inserido em uma dinâmica onde ele não é um espectador. Pelo contrário, ele deve se envolver e usufruir do potencial comunicativo oferecido pelas ferramentas virtuais e pelas propostas de discussão colaborativa, buscando ir além da compreensão/memorização de conceitos isolados. Dessa forma, o educando possui a responsabilidade de situar o seu grau de aprendizagem e de (re)agir, ponderando seu nível de envolvimento com a (re)construção de seu conhecimento.

Definitivamente, se olharmos para o possível ganho de qualidade no processo de ensino-aprendizagem de tal abordagem, o virtual potencializa o atual da escola tradicional.

Um abraço e até o próximo post.

Referências Bibliográficas

LÉVY. Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era dainformática. Tradução: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.

LÉVY. Pierre. O que é o virtual. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1996.

LÉVY. Pierre. Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.

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comentários
  1. Prezado Marcinho,

    gostaria de fazer um breve comentário considerando todos os textos apresentados até aqui. Vc apresenta uma visão muito segura sobre as questões relacionadas à cibercultura, cultura digital, tecnologias na educação e todos os termos e conceitos acerca desse assunto extremamente relevante e fundamental para novas possibilidades na educação.
    São reflexões que contribuem significativamente para a discussão sobre as necessidades de renovação, de reconfiguração e apropriação das TICs no contexto educacional, não somente em relação ao espaço físicos e equipamentos, mas principalmente dos sujeitos protagonistas nesse processo, os professores e educandos.
    Parabéns pelo trabalho e por todo o empenho nesse processo de colaboração e (re)construção.

  2. Fernando disse:

    A utilização das ferramentas de colaboração para produção conjunta de conhecimento é algo que vai muito além de uma simples reconfiguração da escola atual. A quebra de um paradigma é extremamente necessária: o professor não é mais o senhor do engenho e os alunos não são mais escravos. A partir desta mudança de postura, onde os grilhões se quebram e abrem-se as portas para a educação colaboradora, as ferramentas providas pela web 2.0 se fazem necessárias, indispensáveis e insubstituíveis.
    Inserções pontuais, ou extremas, são medidas paliativas para a solução de um problema que atravessa os séculos: o prazer de ensinar e aprender. Por este motivo, não creio que deva existir escola convencional ou virtual, mas sim, a junção das duas, de forma realmente coesa, para a quebra dos grilhões.
    Ótimo post.

    • Marcinho Lima disse:

      Isso ai Fernando, dedo na ferida. A ideia da substituição tem de ser combatida. Na verdade o que precisamos compreender é que – mediante ao cenário da cibercultura – a escola e seus processos têm de ser reconfigurados e compatibilizados.

      Não podemos mais admitir a passividade e a transmissão, elementos típicos da sociedade industrial e de uma cultura ultrapassada. Temos muito trabalho pela frente, isso sim…

      • Fernando disse:

        Mas, Marcinho, você não acredita que estas mudanças devem ocorrer no âmago da formação dos educadores? Âmago este que, em sua grande maioria têm como formadores os dinossauros intransigentes da passividade? Como formar profissionais novos a partir de “cabeças velhas”? Vejo, em sua maioria, velhas cabeças novas chegando ao mercado educacional. Solução? Conseguir que as novas cibercabeças cheguem à formadoras tb.

      • Marcinho Lima disse:

        Pois então Fernando, essa é a questão chave. Temos de promover mudanças urgentes!! E elas são de complexidade, afinal, tratamos de “cabeças velhas” – como você caracteriza. O desafio é grande, mas não é impossível. O primeiro passo é o nosso exemplo: promover ações inovadoras, pedagogicamente eficientes e eficazes, fora do senso comum e com planejamento. O segundo momento é o do debate e sensibilização (mais esforço para nós). Trabalho de formiguinha…

        O aluno é fundamental no processo. Ele é quem vai dar o feedback das experiências e dizer “aprendi” ou, no pior dos casos: “mais do mesmo”. Fiz um trabalho aqui nesse semestre, foi ótimo. Colhi bons resultados, mas como ele está sendo avaliado por uma comissão científica (será provavelmente apresentado em um evento na UFVJM – II Semana de Prática Pedagógica – 2011) me atenho a comentar que foi uma experiência que incentivou a autoria e a publicação em rede com ótimos resultados. Assim, se o aluno aprova e aprende, temos o feedback positivo que pode inspirar (ou perturbar, risos) as “cabeças velhas”.

        Prefiro acreditar no potencial de mudança e inovação das universidades (e de seus agentes)… sem isso não valeria a pena estar aqui! (Inclusive te digo que fiz boas relações aqui, com pessoas que já se atentaram para essa realidade – afinal, saímos do paradigma do “ser professor” para o do “se manter professor“).

        Vamos a luta?

        Um abraço!

  3. cris chabes disse:

    Olá Marcinho,adorei o texto sobre virtualização da escola. O mais interessante é já estamos acostumados a ouvir sobre EAD, mas não a refletir que essa escola pode e “já deveria” estar inserida dentro da escola tradicional. Quero dizer, no lugar do professor a frente da lousa e do aluno sentado horas na cadeira ouvindo, deveríamos ter o aluno com o computador buscando e agregando conhecimento apenas mediado pelo professor. Imagino um grupo de alunos buscando informações sobre um conteúdo de estudo, quanto aprendizado em uma única aula. Mas para isso é preciso preparar o professor para ser um mediador e principalmente disponibilizar recursos para equipar as escolas.
    Acreditar em uma educação possível é o primeiro passo para realizar essa educação.
    Abraços e parabéns, ótimos textos em seu blog.
    Peço licença para copiar alguns e disponibilizar no meu blog, sempre atribuindo os créditos devidos.
    Cris Chabes

    • Marcinho Lima disse:

      Olá Cris Chabes, ótimo ver mais educadores por aqui. O objetivo do blog é esse mesmo: escutar experiências e ampliar o debate e a teia de relações.

      Sua leitura do texto é apropriada. Temos sim de acreditar na mudança de paradigma, sempre nos preparando ela e assumindo uma postura prática e compatível. Um ponto destacado por você – e um compromisso nosso na universidade, pelo menos na teoria – 😦 – é de instrumentalizar o professor para essa realidade. Indiscutivelmente, um ponto crucial para o rompimento com o modelo falido e milenar da escola: sem professor capacitado para o exercício da ciberdocência estamos fadados ao insucesso.

      Agradeço sua visita, tens a minha concessão em divulgar o material do “Cibereducação” – que inclusive está em Creative Commons.

      Muito obrigado! Até breve.

      Marcinho Lima

  4. Edson Moura disse:

    Gostaria de saber como referenciar este trabalho, além da citação da página.

    • Marcinho Lima disse:

      Olá Edson, obrigado por visitar o blog e se interessar pela publicação.

      O esquema da referência é:

      AUTOR(ES). Título: subtítulo (se houver) Disponível em:. Data de acesso

      Sugiro:

      LIMA, Márcio Roberto de. Uma perspectiva para compreender a virtualização da escola. Disponível em: . Acesso em: XX/XX/XXXX

      Gostaria de, se possível, ter acesso ao seu material, onde você irá compartilhar as ideias do meu texto. Assim aprendemos e crescemos juntos!

      Abraços,

      Marcinho Lima
      http://www.marcinholima.com.br
      https://cibereducacao.wordpress.com

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