A associação ao computador é recorrente quando se pensa na combinação entre tecnologia e processos educacionais. Entretanto, em uma abordagem histórica e etnologicamente ampliada, não se pode esquecer que o termo “tecnologia educacional” inclui todos os tipos de equipamentos que se fazem úteis ao ensino-aprendizagem, tais como: o quadro, um equipamento de laboratório de ciências, um retroprojetor etc. Dessa maneira, constata-se que ao longo da história da educação diferentes dispositivos tecnológicos vêm sendo incorporados ao fazer pedagógico.

Ainda assim, a afirmativa de que os ambientes educacionais são pobres em recursos que estimulem o pensamento e a expressão de ideias é habitual. São muito comuns processos pedagógicos baseados na transmissão e reprodução de conteúdos, na repetição e memorização de informações.

Caricatura do método transmissivo de ensino. Fonte: HARPER, Babette et al, 1980, p.48.

O educador Paulo Freire criticava tais práticas valendo-se da metáfora onde a escola seguia um “modelo bancário”, no qual pequenas porções de informações seriam depositadas na mente dos educandos pelos professores, em conformidade ao que acontece com dinheiro em uma conta corrente. Nesse modelo de escola, o currículo é estanque, os conteúdos fragmentados e desconexos, e a transmissão de informações é a principal – senão a única – via de interação entre os sujeitos do processo educacional. Perpetua-se, portanto, a lógica transmissiva e o vazio de aprendizagem proporcionado pelo sistema educativo baseado exclusivamente na instrução.

Cabe então questionar se a incorporação dos recursos tecnológicos nos processos educativos contribuiu (ou vem contribuindo) para romper com essa perspectiva. Na verdade, faz-se necessário estimular o uso do computador como ferramenta que coloca o educando como (inter)agente no processo educacional, possibilitando uma readequação de sua posição de consumidor de informações.

A “lógica da transmissão” teve (e ainda tem) seu lugar na própria internet. Em sua primeira configuração (WEB 1.0), a rede se revelava como um grande repositório de informações para serem consultadas pelos usuários. Vigorava o modelo broadcasting (um para todos): unilateral e antidialógico. Entretanto, em sua primeira reconfiguração surgiu a WEB 2.0. Nessa nova perspectiva, o “usuário” passou a contar com a possibilidade de superar sua condição de espectador/consumidor de informações. Isso foi possível devido ao advento de inúmeras ferramentas no ciberespaço (blogs, vídeo-blogs, wikis etc) que permitem a produção e compartilhamento de conteúdos. Tais funcionalidades são em sua maioria gratuitas, de livre acesso e uso.

Ao se adotar uma ferramenta da WEB 2.0 como recurso pedagógico, deve-se ter claramente definida uma intencionalidade educativa. Utilizar uma ferramenta digital apenas como “modismo” é virtualizar o que é tradicionalmente explorado na sala de aula, sem ganho para a aprendizagem.

Para fazer valer efetivamente a incorporação de recursos como os apresentados, professores e alunos precisam envolver-se em propostas interativas que têm as plataformas da WEB2.0 como ponto de partida para a construção da aprendizagem. Usar as ferramentas do ciberespaço apenas para divulgar conteúdos para estudo é recair na já sedimentada lógica da transmissão, que é muito melhor explorada com as aulas meramente expositivas e material textual convencional.

O importante nessa nova perspectiva educacional é buscar motivar a participação colaborativa nas ferramentas, abrindo espaços para os debates, (re)significações, associações entre conhecimentos já adquiridos etc. Aqui temos uma possível releitura/reconfiguração do que Paulo Freire (1983) preconizava: “A educação autentica não se faz de A para B ou de B sobre A, mas de A com B, mediatizados pelo mundo“.

Até a próxima.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 12 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983.

HARPER, B. et al. Cuidado: escola, desigualdade, domesticação e algumas saídas. 25.ed. São Paulo: Brasiliense, 1980.

LIMA, Márcio Roberto de. Leal, Murilo Cruz . Ciberpedagogia: indicativos para o rompimento com a lógica da transmissão. Vertentes (UFSJ), São João del-Rei, n.35, p.24-35, jan-jun/2010.

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comentários
  1. Fernando disse:

    Perguntas:
    Como a criação deste ambiente colaborativo-interativo será possível em uma sala com 40 alunos?

    A formação de novos professores está preocupada em forma professores novos?

    Existem, realmente, nas grades curriculares dos cursos, matérias que incorporem as ferramentas colaborativas ao processo educacional?

    Esta iniciativa(mudança radical no fazer pedagógico) será privada ou pública?

    Volto para continuarmos a discussão.
    Abraços

    • Marcinho Lima disse:

      Fernando, ótimas perguntas… discussão longa e complexa.

      Quanto as turmas-> A quantidade influi na qualidade. Mas pelos dois “lados da moeda”. Explico-me: não adianta turmas pequenas que não se disponham a interagir e/ou turmas enormes que não seja possível acompanhar as interações. Muito difícil não é? Mas a impressão que tenho colhido é que nas turmas menores (como no grupo de estudos) as discussões são mais aprofundadas e proveitosas. Agora uma constatação: minhas turmas beiram as 80 pessoas (tenho duas)! E o pior: a previsão de entrada é de 120, por turma. Modelo que carece de amadurecimento e reconfigurações…

      Na questão da formação dos professores também temos dois aspectos. A formação continuada (para aqueles que já estão em exercício) e a formação dos novos professores. Sua questão é provocadora… No cenário da cultura digital vejo uma preocupação com a formação continuada, mas dos novos professores ainda muito tímida. Basta olhar para as licenciaturas… poucas têm cadeiras de didática no contexto da cibercultura – note que a questão extrapola o “ensinar” informática e recai também no ensinar “com” a informática. Temos muito o que evoluir!

      Sobre a sua questão do currículo e novas disciplinas: não creio que isso seja necessário! Não se assuste, explico-me: na verdade o currículo tem que passar a pressupor novos modelos de interação utilizando as ferramentas colaborativas. Ou seja, o fazer pedagógico tem de ir ao enconto (e não de encontro) de novas formas de construir a aprendizagem. Não podemos engessar na grade (coisa de prisão, não é?) mais disciplinas (nossa, coisa de exército!!) que não se relacionam e que são conteudistas. Na verdade esse é o tema do momento! A prof. Bete Almeida (PUC/SP) introduziu o conceito WEBCurriculo… Aqui a pesquisa acadêmica começa a se aprofundar no assunto e a traçar diretivas. Tem também a experiência no LEC da UFRGS, com a profa. Lea Fagundes… Temos de aprender muito com elas.

      Quanto a sua última questão, privacidade/pública, se entendi bem… não vejo disjunção e sim conjunção: ou seja nos dois modelos.

      Espero ter encaminhado a discussão!

      • Fernando disse:

        1 – O modelo adotado pelo governo “Todos na universidade” é algo extremamente positivo. Mas, este processo inicial, é penoso, pois a estrutura não suporta o projeto, que, em contra-partida, deve dar resultados imediatos. Válido, mas quantidade não é qualidade.

        2 e 3- Velhas cabeças formam novas cabeças velhas. Um educador, de fato e de direito, não se deixa acomodar por não ter a cadeira ideal. O fazer pedagógicco, interativo, à partir das ferramentas da cibercultura é possível em qualquer disciplina. São meios, não fins.

        4 – A questão da competitividade entre as particulares(questão de sobrevivência no mercado) me faz acreditar que essa mudança possa partir, principalmente de lá(pelo menos na educação básica, nicho que conheço bem). Infelizmente, o setor público, ainda se mostra bastante infectado pelo funciono-comodismo. Isso tem mudado, mas, de forma muito discreta ainda.

  2. Olá Marcinho!
    Adorei seu blog, muito bom. Ótimas e necessárias discussões, meus parabéns!
    Se quiser conhecer também meu outro blog, deixo aí o endereço.
    Beijo grande!

  3. […] interativa”, que pressupõe o rompimento com a lógica da transmissão (já debatida no post https://cibereducacao.wordpress.com/2010/09/07/ciberpedagogia-supendo-a-logica-da-transmissao/). Com ela fica fortalecido um estilo de ensino-aprendizagem onde imperam a liberdade dialógica, a […]

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